28/03/2023
Vincent van Gogh (1853-1890) já tinha declarado seu espanto e fascínio com a luz antes mesmo de criar as telas que o tornariam um dos maiores nomes da história da arte. Quando trabalhou como missionário numa mina de carvão na Bélgica, em 1879, descreveu com detalhes a rotina dos trabalhadores centenas de metros abaixo da terra, sujos de escuridão e iluminados por fagulhas de fogo.
Essas fagulhas explodiriam, na forma de estrelas, num dos quadros mais conhecidos do mundo ocidental. "A Noite Estrelada" (1889), hoje na coleção do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), pode ser considerado obra seminal do expressionismo: a paisagem de fato existiu, mas ganhou os contornos da mente perturbada do artista. Ao apoiar-se na memória e em emoções pessoais, Van Gogh abandona a doutrina do impressionismo, calcada na fidelidade às sensações táteis e visuais provocadas pela natureza, e se lança em nova direção.
Desde que se refugiara em Arles, no interior da França, em 1888, Van Gogh se debruçou sobre experimentos para retratar a noite. Numa das célebres cartas ao irmão Theo, escreveu que "a noite parece muitas vezes mais colorida do que o dia". Um ano antes de pintar "A Noite Estrelada", havia feito uma primeira versão do "A Noite Estrelada em Saint-Rémy" hoje no Museu de Orsay, em Paris - bem mais sóbria.
O pintor criou a segunda versão depois de ter sido internado no sanatório mental de Saint-Paul-de-Mausole, perto de Arles. A paisagem que aparece no quadro é a vista que tinha da pequena janela gradeada de seu quarto. Mas ele a recupera de memória: Van Gogh não pintava à noite, olhando o objeto da tela. Trabalhava à luz do dia, só com a lembrança da noite.
Os ciprestes, as parreiras e as oliveiras do quadro surgiram de poucos passeios que fez acompanhado de um enfermeiro.
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