09/07/2026
ARUJÁ E A REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932
A Revolução Constitucionalista de 1932 foi a maior guerra civil da história do Brasil no século XX e representou o principal movimento de oposição ao governo de Getúlio Vargas (1882-1954), instaurado após a Revolução de 1930. A deposição do presidente Washington Luís (1869-1957) e a ascensão do político sul-rio-grandense ao poder provocaram profundas transformações na estrutura política do país, encerrando a hegemonia exercida pelas oligarquias paulistas durante a Primeira República (1889-1930), denominada República Velha pelos varguistas, e mergulhando o Partido Republicano Paulista (PRP), principal força política de São Paulo desde o final do século XIX, em uma profunda crise. Além da suspensão da Constituição de 1891, do fechamento do Congresso Nacional, da dissolução das assembleias legislativas e da nomeação de interventores federais para os estados, o novo governo concentrou amplos poderes nas mãos do Executivo, alimentando a insatisfação de diferentes setores da sociedade paulista.
Em São Paulo, políticos, intelectuais, militares, estudantes e parte da população passaram a reivindicar o restabelecimento da ordem constitucional, a realização de eleições e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. Após meses de crescente tensão política e da morte dos estudantes Mário Martins de Almeida (1907-1932), Euclides Bueno Miragaia (1911-1932), Dráusio Marcondes de Sousa (1917-1932) e Antônio Américo de Camargo Andrade (1901-1932), em 23 de maio de 1932, episódio que deu origem ao Movimento MMDC e intensificou a mobilização popular, a revolta armada foi deflagrada em 9 de julho de 1932. Embora derrotado militarmente após quase três meses de combates, o movimento constitucionalista exerceu significativa pressão sobre o governo federal, contribuindo para a convocação da Assembleia Nacional Constituinte em 1933 e para a promulgação da Constituição de 1934, consolidando-se como um dos acontecimentos mais marcantes da história política paulista e brasileira.
Em 22 de agosto de 1932, em meio à Revolução Constitucionalista, o Acantonamento de Mogi das Cruzes, subordinado à Legião Paulista, determinou, por ordem do capitão Cario Mourão Peralva (1905-?), a instalação de um Posto Auxiliar de Policiamento da Força Pública do Estado de São Paulo no então distrito de Arujá. A medida visava reforçar a vigilância e a segurança da região, cuja posição estratégica no Alto Tietê, entre a capital paulista e o Vale do Paraíba, inseria o distrito na estrutura de apoio às operações constitucionalistas. Embora Arujá não tenha sido palco de combates, o distrito integrou o esforço de guerra paulista ao desempenhar funções de retaguarda.
A comissão encarregada da implantação do posto foi composta pelo português Albino Rodrigues Neves (1904-1986), pelo libanês Simão Manoel (1899-1939) e pelo isabelense Adelino Lopes Gonçalves (1890-?), aos quais foi conferida ampla autoridade para empregar os meios necessários ao cumprimento da missão. Cabia-lhes organizar os serviços de policiamento e vigilância, assegurando a manutenção da ordem e contribuindo para a mobilização de recrutas e recursos destinados às frentes de combate. Ao concluir a nomeação, o comando do acantonamento manifestou confiança na capacidade dos designados e desejou-lhes pleno êxito no desempenho de suas atribuições. Entre os arujaenses alistados encontrava-se Benedito Rodrigues, pai de Júlia Maria de Moura (1921-2021), tradicional moradora do município.
Ao total, estima-se que mais de 200 mil voluntários tenham se apresentado ao movimento, dos quais entre 35 mil e 40 mil efetivamente combateram nas frentes de guerra. As estatísticas oficiais do governo paulista registram 934 mortos entre os constitucionalistas, embora pesquisas posteriores apontem que o número total de vítimas, incluindo tropas federais e civis, possa ter variado entre 2 mil e 2,5 mil. Em Mogi das Cruzes, 261 moradores foram incorporados às forças constitucionalistas. Entre eles, Diogo Oliver (?-1932), Fernando Pinheiro Franco (1906-1932), Jair Fontes de Godoy (?-1932) e José Antônio Benedito (?-1932) perderam a vida durante o conflito e, posteriormente, tiveram seus nomes perpetuados em importantes vias públicas do município.
Em Arujá, o tímido reconhecimento aos participantes do movimento perdurou nas décadas seguintes. Por meio da Lei Municipal nº 603, de 22 de maio de 1984, sancionada pelo então prefeito Antônio Carlos Mendonça, o Toninho da Pamonha, foi concedida isenção do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) aos ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira e da Revolução Constitucionalista de 1932, como forma de reconhecer aqueles que serviram ao estado de São Paulo e ao Brasil.
Ensaio escrito por L. B. S. S. K.
Arujá, 9 de Julho de 2026