19/04/2026
No dia 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas/ Povos Originários
Trazemos uma pesquisa sobre os povos originários do Marajó. Um estudo sobre o uso do território que ocuparam, costumes, saberes e fazeres de um povo ancestral.
INDÍGENAS MARAJOARAS
Texto e Pesquisa: Diego Bragança de Moura
Nesse dia 19 de abril, quando se comemora o Dia do Índio no Brasil, vou fazer algo diferente. Ao invés de estimular as crianças a pintarem o rosto e o corpo de tinta guache (apesar de não ser recomendado) e usarem um cocá e saiote de cartolina. Irei falar um pouco sobre os primeiros habitantes do Arquipélago do Marajó, mais especialmente, daqueles que viveram e sobreviveram na região do Arari: Cachoeira do Arari, Santa Cruz do Arari e Ponta de Pedras. Buscarei dissertar sobre seus habitantes, formas de alimentação, construções e experiências culturais, além de tentar demarcar as diferentes fases: Ananatuba, Formiga, Acauã, Mangueira, Marajoara e Aruãs. Até porque nunca vi muito sentido, me desculpe quem adota essa prática, fantasiar as crianças de índio, que muitas vezes se parecem muito mais com os indígenas norte-americanos do que com os nossos indígenas brasileiros (que são muitos, diversos e plurais do ponto de vista cultural, social, histórico e de tipos humanos). Fazer tudo isso, e não ensinar quem eram e são os indígenas brasileiros, suas importâncias, culturas e histórias, por mais que se escolha um grupo para explicar. Porque para muitas criança, e essas consequências se mantém nos adultos, os indígenas acabam sendo vistos como folclore, elementos de fantasia de carnaval e elementos distantes de nós e verdadeiras pontos alegóricos.
Primeiro temos que entender qual era e, em certa medida, ainda continua sendo/existindo, esse ambiente natural onde os nativos ancestrais viviam, sobrevivem e existiam.
Estamos falando de um cenário onde a vida é determinada e definida pelas águas, suas variações, intensidades, níveis e forças. O que definia, muitas vezes, a vida e/ou a morte de muitos e muitos. Como o Pe. Giovanni Gallo (1996), nos disse:
"No Marajó quem manda não é o presidente da República, não é o governador. Aqui domina uma ditadura total e absoluta: A água. É a água que oferece os meios de subsistência e atrapalha a vida, condiciona a saúde, o trabalho, tudo, se levantar a voz, de forma traiçoeira, implacável. As estações do ano aqui tem um nome exclusivo: Água, lama, seca. É a falada ditadura da água." (GALLO, 1996)
As águas, sejam elas provenientes das chuvas, dos rios e lagos da ilha de Marajó, sempre foram as responsáveis por determinar a vida de seus habitantes. Todas as atividades desenvolvidas na ilha, de uma forma ou de outra, dependem das águas. No transporte, na alimentação, no entretenimento e no trabalho. E, isso não era diferente com os diferentes povos indígenas que habitaram essa região.
Essas águas originárias da Cordilheira dos Andes, passando pelo rio Amazonas até desembocar/desaguar no Marajó, com suas forças, variações de maré e densidades pluviométricas foram formando rios, igarapés, furos, braços e lagos cortando toda a ilha, modificando e conformando o cenário natural marajoara. Com o inverno esse cenário se modifica mais uma vez. Com o aumento do nível dos rios e a elevação da pluviosidade, o balanço das enchentes e vazantes das marés (maré alta e maré baixa), auxiliado pelo aumento das chuvas nesse período, são responsáveis por deixar cerca de dois terços da área dos campos submersas, com as fronteiras entre a água dos rios e a terra firme, quase que inexistente nesse período. Os leitos dos rios, as margens, somem ficando completamente tomadas pelas águas e, o que antes era campo vira lagos e mares, em um verdadeiro tapete de água. É o espetáculo das águas, que mais uma vez demonstram sua força e sua vontade imperativa.
O poeta, compositor e músico de Cachoeira do Arari, Zezinho Viana, sempre retratou a natureza marajoara. Na letra de sua música “Invernada Marajoara”, descreve com perfeição o cenário que se observa nos campos marajoaras na época das chuvas:
"Numa canoa pequena,
Nos campos eu vou navegar,
Eu não vejo mais terruada,
Só imenso e vasto mar,
Com folhagem na flor d’água,
Varas que eu vou empurrar,
Pelas vistas apuradas,
Para poder contemplar,
Casa inundada no Choque,
Lama no meio da rua,
Pancada de chuva pesada,
Que cai em noite de lua,
E a cigarra anuncia,
Cantigas para bailar,
Cantos dos sapos alegres,
É o inverno que já está pra chegar." (Zezinho Viana)
O geólogo Fritz Ackermann (1950), afirmava que os campos marajoaras eram como um grande prato raso, que com as bordas elevadas, impossibilitava o escoamento das águas das chuvas que permaneciam represadas no centro da ilha. Formando assim, o cenário observado na época da chamada invernada marajoara, quando os campos viram “mar” e os cavalos são substituídos por canoas.
Nesse período de enchentes, os indígenas marajoaras como grandes conhecedores dos segredos do convívio e da navegabilidade dos rios e lagos formados pela a ação das águas das chuvas, que durante o inverno, caem todos os dias, as vezes sem parar. Desenvolveram técnicas que possibilitavam um melhor convívio e adaptação aos fenômenos naturais. Tesos, represas e lagos artificiais, foram medidas adotadas por esses moradores, para sobreviverem e conviverem com os mandos e desmandos das águas.
Assim como a presença marcante das águas determina a vida e a morte, sua ausência também é algo bastante sentido desde os tempos das presenças dos nossos ancestrais. Com a diminuição das chuvas os campos marajoaras reaparecem, dando início como denominou Pe. Gallo, a “estação da lama”. Os ventos fortes e o sol implacável, secam os campos rachando-os, originando assim as terruadas/terroadas já mencionadas por Zezinho Viana em sua música Invernada marajoara. Um terreno bastante irregular, que dificulta o deslocamento das pessoas sobre o solo. Para tanto, as diferentes fases indígenas marajoaras assim como realizavam no período do inverno construíram barreiras, lagos artificiais e represas para armazenar o pouco de água no verão.
A fonte de alimento desses povos era baseada predominantemente na pesca, realizada nos igarapés e lagos existentes nas áreas dos campos. Com o final do período das chuvas, quando o nível das águas começa a baixar essa forma de obtenção de alimento era facilitada. Levando os indígenas da ilha, a construírem barragens e lagos para represarem a águas, garantindo assim a água necessária durante o período da seca e os peixes, camarões e demais animais que ficaram aprisionados. Além disso, eram construídos também currais, para a pesca de peixes. Com o fim da época das cheias e com a grande sedimentação dos leitos dos rios, o seja, com grande quantidade de paus, terra, mato e diversos sedimentos e materiais que eram levados para dentro do rio, os mesmos ficavam obstruídos, dificultando a passagem das águas. Para facilitar a vida dos indígenas, a desobstrução dos lagos e canais deveriam ser realizadas, retirando a terra em excesso, que era levada para o topo dos tesos, ampliando a área e a altura dessas edificações. Locais onde além de serem utilizados como moradias, os índios nesses tesos, consumiam o peixe (sua principal fonte de proteína), mantinham tartarugas presas em currais, para consumirem seus ovos e carnes. Além de a banha da tartaruga ser um excelente conservante utilizado na conservação de peixes e carnes de outros animais.
A caça também fazia parte das atividades dos indígenas, em menor escala é claro, de animais como: tatus, capivaras, veados, pacas e diversos outros tipos de pássaros e macacos. Mas o peixe continuava sendo a principal fonte de proteína desses povos. O que justificava a construção de aldeias e tesos próximos de rios e lagos. Algo que pode ser observado nas representações zoomórficas encontradas na cerâmica marajoara. Onde os animais como, os citados acima, eram pintados e gravados nas peças de argila, para demonstrar a fauna da região e a ligação mitológica e sagrada que esses animais possuíam perante as tribos.
A agricultura também era uma atividade desenvolvida por esses povos, principalmente, por aqueles que moravam nas áreas de floresta, que estabeleciam relações de troca com os dos campos. Com esses últimos fornecendo peixes e os primeiros vegetais como a mandioca. Existia também o consumo de frutas como: açaí, castanha, tucumã e abacaxi, além de formas silvestres de arroz e de tudo o que a natureza pudesse oferecer, incluindo nessa lista, formigas e insetos dos mais variados tamanhos e formas.
Apesar de existir disputas por liderança dentro do sistema de cacicado, onde um líder buscar garantir seu controle e prestígio sobre terras, aldeias e fontes de alimentos. A terra era comunal, ou seja, de uso de todos os habitantes da aldeia. Assim como as casas construídas em madeira e palha, utilizadas de forma comunitária, onde quatro a cinco famílias nucleares habitavam. Casas essas que poderiam ser suspensas (palafitas) ou construídas em chão batido. Essas muitas com o chão formado a partir de um mistura de cinzas, carvão e argila, o que tornava o chão bastante compacto. Todas essas casas, principalmente na fase marajoara, eram construídas em cima de tesos, todos acima do nível das águas, para enfrentar e resistir ao período do inverno, tendo sob esses tesos um número variado de moradias, organizadas sobre uma estrutura hierárquica, sendo a casa do chefe ou cacique, construída em uma posição de destaque em relação à aldeia.
Os índios marajoaras como forma de representa suas crenças mitológicas e os elementos da natureza, costumavam pintar seus corpos com motivos geométricos, linhas curvas, círculos e retas. Desenhos esses adquiridos a partir da ingestão e inalação de substâncias alucinógenas (raízes, folhas e plantas selecionadas), capazes de produzir na retina dos que as ingeriam formas padronizadas de círculos, retângulos, losangos entre outras formas geométricas, associadas pelos indígenas com elementos da natureza e histórias mitológicas de suas culturas, sendo representadas em pinturas corporais e em cerâmicas.
As cerâmicas das fases indígenas do Marajó apresentam funções e formas das mais variadas possíveis. A sua confecção era uma atividade coletiva dos moradores de determinadas localidades. Eram produzidas vasilhas e objetos variados, que seriam utilizados, tanto individualmente como em atividades comunitárias, no cotidiano desses povos ou em cerimônias e rituais sagrados. A produção dessas cerâmicas uma atividade considerada por essas sociedades de responsabilidade feminina, apesar de os homens participarem de algumas etapas da produção como, no transporte de peças grandes e na queima das mesmas. Na produção dessas cerâmicas os materiais utilizados eram a argila extraída dos rios e misturadas com cinzas, carvão e ossos macerados, que formariam a peça na confecção final. Atividade realizada principalmente no verão, período em que as águas já baixaram e a umidade está menor, fatores necessários para que a secagem das peças seja melhor e mais rápida. Essas cerâmicas utilizadas tanto para o armazenamento de alimentos e bebidas, como em rituais e cerimônias de passagem da infância para a idade adulta, em festas em comemoração a uma boa colheita, enterros de lideres, veneração de antepassados ou em trocas de alimentos com outras aldeias. Entre esses empregos da cerâmica marajoara, os sepultamentos foram uma das atividades que a cerâmica ritualística mais foi utilizada e, onde as pinturas são mais encontradas, em grandes urnas funerárias, enterradas nos tesos, com os corpos inteiros ou apenas com os ossos de lideres e guerreiros depositados nessas urnas. Vale ressaltar, que essas urnas funerárias eram enterradas no solo das próprias ocas onde os indígenas moravam. Pois, a morte para esses povos eram apenas uma passagem para um outro mundo e, muitos grupos acreditavam que as almas dos antepassados permaneciam em contato com os vivos, os protegendo e livrando das energias negativas do mundo material e espiritual.
Com relação à cerâmica marajoara, Roosevelt enfatizou o fato de a arte marajoara possuir seu aspecto religioso ou sagrado, bastante relacionada com a organização social das aldeias e a produção e o manejo dos recursos naturais trabalhados. Segundo essa interpretação dos significados da cerâmica marajoara, Denise Schaan nos mostra que:
“a exuberância de formas, o emprego de técnicas aprimoradas, o domínio de corantes, a destreza com o trato com a matéria-prima e os desenhos grafados ou pintados estão intimamente relacionados com a utilidade social dos objetos.” (SCHAAN. 1997, p. 22)
Nessa analise os objetos produzidos por essas populações indígenas do Marajó, eram objetos artísticos, mas que possuíam suas funções e utilidades, ou seja, eram vasilhas, tangas e urnas decoradas plasticamente, mas que teriam suas utilidades para o grupo, em rituais, sepultamentos, homenagens, comemorações ou passagens para a fase adulta. Essa relação arte-função do objeto, se estabelece em um determinado contexto cultural, que nesse caso, trata do contexto cultural e social das populações indígenas marajoaras. Os objetos que aqui chamamos de artísticos, nas sociedade marajoaras, assim como em outras sociedade indígenas, além do seu significado estético, também possuem o seu significa “social, técnico, religioso, moral, étnico e simbólico.”
Sobre os sepultamentos podemos citar a existência de três tipos de sepultamentos: o primário, com os cadáveres colocados no interior das urnas, em posição sentada, e dois tipos de sepultamento secundários. Um com a colocação dos ossos descarnificados (os corpos era enterrados apenas com um fina camada de terra por cima, para facilitar a decomposição e o consumo por insetos e demais seres da carne em pouco tempo) e depois depositados na urna e, o outro sepultamento secundário, com a incineração dos corpos, tendo as cinzas colocadas nas urnas.
Podemos concluir que os tesos encontrados em grupos, podiam possuir funções diferentes nessas sociedades: os tesos-cemitérios, onde foram encontradas urnas funerárias e cerâmicas decoradas. E os tesos-habitações, locais onde foram encontradas cerâmicas simples de uso cotidiano dessas aldeias. Assim como, tesos que desenvolviam ao mesmo tempo as duas funções. Isso vai depender do período e da sociedade/fase que estamos estudando. Mas uma das conclusões mais significativas, ao estudarmos sobre as cerâmicas encontradas por diferentes arqueólogos, está na divisão temporal e social das populações que habitaram a ilha antes da colonização. Ocupações anteriores a Fase Marajoara: Fases Ananatuba, Mangueira, Acauã e Formiga, e já contemporânea ao contato com os colonizadores, a Fase Aruã. Fases essas, que algumas chegaram a conviver umas com as outras por determinado tempo.
A Fase Ananatuba teve duração de aproximadamente 500 anos. Surgindo provavelmente em 1.500 a.C. e, sobrevivendo até 1.000 a.C.. Habitavam na costa do Marajó, penetrando para sudeste até o rio Camará, onde vivam em aldeias de 300 a 700 m² de área, com uma grande casa comunal construída sobre estacas, nos limites das matas com o campo e nas proximidades de rios ou igarapés. Por muitas vezes construíam casas em elevações (tesos), onde praticavam uma agricultura incipiente, ou seja, que ainda iniciava a domesticação de vegetais.
A Fase Mangueira, que provavelmente surgiu em 1.000 a.C. e, sobreviveu até 100 d.C., conviveram por um determinado período com a Fase Ananatuba. Moravam na costa norte da ilha de Caviana, em casas construídas sobre estacas, distribuídas em círculos ou forma oval. As aldeias possuíam cerca de 2.000 a 4.000 m² de área, localizadas nas matas distantes dos rios cerca de 250 m, locais que não estavam sujeitos a inundações. Nesses locais eles praticavam uma agricultura de derrubada e queima da mata, para a preparação do solo para o plantio de legumes e raízes, como a mandioca.
A Fase Acauã apesar de os pesquisadores terem encontrado suas presenças e vivências no território marajoara. É uma fase com poucos elementos que possam nos dizer sobre como viviam e sobreviviam. É como uma fase de transição entre a fase Formiga e a Fase Mangueira, com traços culturais, sociais e históricos semelhantes a essas fases. Acreditasse que tenha existido segundo pode ser observado na imagem da tabela das fases indígenas, aproximadamente, entre 500 a.C. e 300 ou 400 d.C.
A Fase Formiga surgiu provavelmente em 100 d.C. e, sobreviveu até 400 d.C.. Moravam na ilha de Marajó na área que corresponde entre as cidades de Chaves, na costa norte da ilha, e as cabeceiras dos rios Goiapi e Camará, a sudeste do lago Arari. Praticavam uma agricultura semelhante a realizada pela Fase Mangueira. Mas diferente dessas, tinham suas aldeias localizadas nas proximidades de rios ou igarapés, sobre pequenas elevações de terra, os chamados tesos.
Finalmente, temos a Fase Marajoara, a mais representativa de todas com relação a produção de cerâmicas encontradas por arqueólogos e pesquisadores em solo marajoara. Surgiu em 400 d.C. e, sobreviveu até 1.300 d.C., ou seja, não chegou a ter contato com os colonizadores europeus. Eram populações que moravam na parte centro oriental da ilha de Marajó, nas proximidades do lado Arari. Nesses locais praticavam uma agricultura intensiva. Eduardo Góes (2006) já se refere a essa prática de domesticação de diversos vegetais como: mandioca, açaí, e pupunha pelos índios marajoara, especialmente, desenvolvida pela Fase Marajoara.
Essa fase Marajoara vivia em aldeias de 5 Km², com sítios para habitação, cemitérios e cerimoniais. Eram aldeias construídas em áreas de campo e formadas por aterros artificiais (Mounds). Pois tais áreas eram passíveis de inundações por estarem localizadas nas margens dos rios e igarapés. As casas eram construídas diretamente sobre o aterro e não em estacas. Caracterizando-se por ser uma sociedade complexa com provável divisão de trabalho acentuada entre homens e mulheres.
A última das fases, a Fase Aruã, surgiu no século XIV e, sobreviveu até o século XVIII. Sendo a única população indígena do Marajó, que desenvolveu um contato com os colonizadores europeus. Mas, mesmo tido sucedido a Fase Marajoara, não apresentava muitos elementos culturais que remetessem a essa fase indígena anterior. Segundo o arqueólogo americano Lathrap, para entender a tribo Aruã é preciso historizar um pouco a tribo Aruak. Proveniente do mar das Antilhas, que se estendeu pelo norte do Peru e do Equador. Tribo que cerca de 3.000 a.C., já se encontravam as proximidades de Manaus e outros já subiam as águas do Rio Negro.
Os Aruak através do Rio Orenoco, povoaram a Foz do Amazonas, ocupando inicialmente o Estado do Amapá e, posteriormente, nas ilhas de Mexianas, Caviana e na costa norte – oriental do Marajó, dando origem a história de formação do povo, grupo ou tribo Aruã. Praticavam agricultura de derrubada e queima da mata. Suas aldeias localizavam-se nas margens de rios navegáveis e sempre próximo a costa da ilha. Com sítios-cemitérios localizados no interior das matas.
Como pudemos perceber, o Marajó foi constituído por seis fases indígenas, que possuíam suas culturas próprias, muitas vezes diferenciando bastante uma das outras. Então, como Linhares (2010) defende, por mais que a Fase Marajoara tenha si formado a partir da reunião de elementos de vários grupos étnicos, “os marajoaras dizem respeito a uma fase e não a uma etnia marajoara”, diferente do que se acredita, que essa fase seja representativa, historicamente e culturalmente falando, das demais culturas indígenas da região do Marajó. É muito comum escutar ao se referirem aos indígenas que habitaram o Arquipélago do Marajó, como "Marajoaras", como pertencentes e originários de uma mesma fase, prática cultural e histórica, mas como demonstrado acima, cada fase possuía suas características próprias e formas de viver e sobreviver com os mandos e desmandos da natureza, principalmente, com relação as águas.
Podemos compreender essa generalização sobre as diferentes fases marajoaras como sendo apenas a penúltima delas representativa, os marajoaras, relacionado a dois aspectos: o primeiro referente a busca de uma identidade local, um mito da origem comum a todos, de “inventa-se uma tradição”, segundo Hobsbawn (2002), que nesse caso assume a cultura marajoara como símbolo a se seguir e valorizar, enxergando nessa cultura antiga elementos que as identificam e “fazem” parte de suas origens, mesmo que de forma filosófica ou mística. O segundo aspecto refere-se a produção de réplicas de peças das cerâmica encontradas na ilha de Marajó. Réplicas que possuem um fim comercial e, por isso, receberam uma denominação generalizante, para facilitar sua venda, como peças artísticas, “representativas”, da cultura marajoara como um todo.
Podemos levar em consideração para entender a extinção dessas diferentes fases indígenas que habitaram o Arquipélago do Marajó, tomando como base diferentes estudos históricos e arqueológicos, que defenderam como teses para esse processo: o solo pobre em nutrientes, a deficiência na oferta de alimentos e os estresses climáticos (enchentes e temperaturas altas no verão), fora fatores que impossibilitaram o desenvolvimento de sociedades complexas e duradoras na região do Marajó. Com relação ao última fase, a Aruã, podemos adicionar o processo colonizador e escravistas, que além de submeterem os indígenas a trabalhos exaustivos, a castigos físicos cruéis e desumanos. Também temos as diferentes epidemias e doenças trazidas pelos europeus, as quais os indígenas não possuíam nenhum anticorpo capaz de defendê-los. Tudo isso, contribuiu para exterminar os povos ancestrais indígenas do Marajó. Ao ponto de mesmo com uma produção cultural, histórica e social tão presente e marcante até nos dias atuais de origem e influência indígena. Mesmo assim, não possuímos nenhuma aldeia ou povoado indígena existente em nossa região.
Mas, também temos teses que contrariam as acima pontuadas sobre o solo não fértil e os problemas climáticos. Roosevelt exaltava os solos férteis das várzeas amazônicas, que possibilitou a agricultura de subsistência desses povos, com o cultivo de milho, mandioca e outros vegetais típicos da região. Fator importante para o crescimento populacional, para a formação de uma sociedade complexa na divisão social, no trabalho e na cultura.
Como pudemos observar ao longo desse texto, a cultura marajoara que sobreviveu no arquipélago do Marajó durante séculos, e que ainda hoje desperta discussões sobre suas origens, desenvolvimentos e os motivos que as levaram a extinção antes mesmo do contato com os colonizadores. Foram culturas muito complexas e de significativas representações nos diversos campos do conhecimento.
Essas culturas pré-históricas, como os arqueólogos costumam denominar, apesar de não terem entrado em contato direto com as civilizações contemporâneas. Com os estudos de inúmeros pesquisadores das áreas da antropologia, arqueologia entre outros ramos do conhecimento, essas culturas foram descobertas e de certa forma apropriadas pelas populações nativas da ilha. Culturas que ainda hoje fazem parte do dia-a-dia de muitos habitantes da ilha, que no universo das fazendas e nas moradias nas margens dos rios, dos chamados ribeirinhos, desenvolvem práticas consideradas primitivas, ou que se assemelham em muitos aspectos com as práticas culturais e sociais dos povos ancestrais nativos.
Práticas essas que podem ser observadas na forma de pescar, no deslocamento pelos rios em canoas, na contenção da água através de barragens e represas, na coleta de frutos e vegetais extraídos da natureza, e na forma de conviver com os mandos e desmandos da natureza. Ou seja, o que temos que ter em mente, é que essa cultura marajoara pré-histórica, serviu como base para a formação de uma cultura marajoara contemporânea. Muito em contato com essas práticas antigas e, que ver nesse passado distante, e ainda bastante desconhecido, uma identificação cultural, étnica, social e técnica responsável pela formação da identidade regional como um povo marajoara. Povo esse identificado com a terra, com a natureza, o clima, as tradições e a cultura que enxerga no passado antigo a suas origens culturais.
Obs: Esse foi um pequeno estudo que teve como base meu trabalho de conclusão do curso de Bacharelado/Licenciatura Plena em História pela UFPA. É apenas um resumo dos estudos desenvolvidos, mas que tem como objetivo, assim como as outras publicações realizadas sobre as histórias de personagens, construções e manifestações do Marajó, e, especialmente, de Cachoeira do Arari. Existem muitas outras informações, dados, autores, porém acredito que as informações destacadas no texto ajudam a entender quem eram esses povos ancestrais nativos da ilha do Marajó. Se você chegou até aqui, lendo tudo, PARABÉNS, pois sua vontade de aprender e se instruir lhe fizeram conhecer sobre o passado de grupos que também é nosso.
.............................
FONTE:
-MOURA, Diego Bragança de,. O PADRE GIOVANNI GALLO E O MUSEU DO MARAJÓ: COLECIONISMO, ARQUEOLOGIA E HISTÓRIA INTELECTUAL NA AMAZÔNIA (1973 - 1987). Monografia - Bacharelado/Licenciatura Plena em História. Faculdade de História, Instituto de Filosofia e Ciência Humanas. Universidade Federal do Pará (UFPA). 2010, 103p.