04/05/2026
"Atento agudamente nesses retratos no esforço de penetrar as pessoas que conheci (uns bem, outros mal) e cujos pedaços reconheço e identifico em mim. Nas minhas, nas deles, nas nossas inferioridades e superioridades. Cada um compõe o Frankstein hereditário com pedaços dos seus mortos. Cuidando dessa gente em cujos meios e de quem recebi a carga que carrego (carga de pedra, de terra, lama, luz, vento, sonho, bem e mal) tenho que dizer a verdade e se possível, toda a verdade".
Há tempos tinha o desejo de conhecer a obra memorialistica de Pedro Nava, médico mineiro hoje pouco conhecido. Neste ano, enfim, comecei. Hoje concluí a leitura do primeiro volume: Baú de Ossos, publicado originalidade em 1972, revelando ao mundo um médico com uma escrita fabulosa.
Nunca fui leitor de genealogia, por considerá-las chatas e falhas narrativamente. Pedro Nava produz genealogia exemplar através da mais encantadora memória, a lá Marcel Proust, em seu tempo redescoberto. Pesquisa de história familiar somada à memória involuntária.
Casas, objetos, pessoas. No Rio, nas Minas, no Ceará. Tudo impulsiona uma memória sensível e fragmentada. "No princípio irmãos, em seguida primos, por fim conterrâneos, compatrícios, compatriotas - em quem fala surdamente o sangue comum".
Sangue, fantasmas, ossos, tudo junto compõe esse mapa ao mesmo tempo de Pedro Nava, mas que vai muito além, "Só quero reencontrar o menino que já fui". Reencontrando o menino, ele acaba reencontrando a todos nós.
Em breve continuo o projeto de leitura, com o "Balão Cativo".