A história dentro de mim,
por Jaque Pauletti, em 06/02/2019. "Pensar é ver o invisível. Estou aqui olhando pela janela e pensando. Como explicar a beleza que vejo? Como ver sem ter o impulso de explicar? Talvez eu esteja precisando conter este impulso e apenas, se pode haver um apenas, sentir. Tão logo capturo a sensação, quero transcrevê-la, seja na escultura da palavra ou na pincelada colorida
no branco da tela. Uma frase, uma informação, um sinal. Lá de fora a luz do sol, num dia ameno e os trinados de pássaros distintos. Um coro de cânticos, a seiva do som. Eles cantam como que regidos pela maestria de alguém e eu penso na ordem das coisas naturais. Reflito e me permito o tempo sobre esta cadeia, este suceder de camadas concêntricas . No frescor da ampla sala de estar assisto o passar das horas, um contrapor de impulsos, de reações ao visível e audível sem barreiras. Aqui recostada e entre mim e a grande janela por onde entra o mundo lá de fora, muitos móveis com histórias. Minha atenção tropeça nestes registros dos meus dias, nesta coleção de afetos e ao mesmo tempo que mergulha no vasto cenário, deixa a sucessão de memórias invadirem minhas lembranças e eu me pergunto. E a questão invoca uma vida que criei onde posso ouvir, ler e saborear tudo. Uma vida esponjosa, sempre carente do fluído dos dias e que absorvendo, respira e exala uma alegria ainda úmida de nascer. Aqui vislumbrando a paisagem, num recanto seguro, nos meus dias quase parados de tão lentos. Esta lentidão me afaga, acarinha minha alma, dedilha as notas de uma cantiga alegre, que me embala. Ali aninhada, no frescor da manhã, lembro de uma casa no interior, janelas entreabertas e o sol colorindo a madeira das paredes. Lá dentro, imagino, alguém feliz, simplesmente evolvida num fazer doméstico que lhe dá razão ao viver o dia. Quase sinto o cheiro do mar de trigo que envolve a casinha e o pó da terra vermelha tinge a minha lembrança. Ah este corante tão intenso, macio e intenso. É a minha infância que me assalta junto com o cheiro de chuva, da terra molhada. E lá fora alguém corta a grama. É o odor das folhas cerradas que impregna minhas narinas e num voo flutuo sobre a casinha que agora imagino ou lembro ser azul. Da chaminé, a fumaça sobe serpenteando e tem cheiro de pinho. Como explicar a beleza do que vejo se não sei bem o limite entre o que de fato vejo e aquilo que minha imaginação revela, seja pela memória ou pela observação? Em frente, sobre o sofá que fica ao pé da janela pela qual assisto o mundo que me rodeia nesta manhã, uma manta florida em tons quentes. Grandes flores amarelas, quase vermelhas e vermelhas. Ramos coloridos que outrora vestiram os ombros de minha mãe hoje cobrem o encosto do móvel que adorna a cena matutina. Tudo tão feminino, tão sagrado na delicadeza das horas que dedico ao viver que enfeita minha vida, de vida. Resignifico agrupando emoções. Se é que posso chamar de emoção o tilintar que o sol sobre a manta florida me causa. Sim, um tilintar pois é vítreo, agudo, tem arestas. Não que machuque, mas invade transversalmente, duro e liso como um espelho, trinca ao menor descuido. Então tilinta! E se posso, e posso, sentir o mundo assim, então viver é o que eu invento. Então a vida é simples assim: o sol entrando pela janela, lá fora os pássaros, o frescor da minha sala e minhas memórias me assaltando e causando um conforto fértil. Quando me pergunto sobre como explicar, vou como que desvirginando uma verdade que madruga. Não que consiga explicar, nem mesmo que exista uma razão, uma receita, não. Este impulso, hoje, pode ser enquanto acontece, vivido. Sem pontos finais, com vírgulas, espaços, suspiros. E então como a terra vermelha levada pelo rio caudaloso da minha memória de infância, as respostas mal existem e viram lama. Decantam se eu as recolho, mas derramam rumo ao mar se deixa-las fluírem. Penso e me recosto numa espécie de embalo que o amanhecer me causa, nos dias em que desperto cedo e vou ao meu próprio encontro. E talvez este pensar, o pensar, me faz ver o que está além do visível."