23/08/2024
De Macabu para o baú de Sílvio Santos
Nos anos 70, na extinta TV Tupi, Sílvio Santos e, seu irmão, Léo Santos, apresentavam o mais concorrido programa de auditório do país, onde, o principal quadro, era aquele em que candidatos, disputavam perguntas dos mais diversos temas, concorrendo a vários prêmios, dos quais, o mais ambicionado, era um veículo Volkswagen 0 Km, um Fusca – carro do ano, desejo de 10 entre 10 motoristas. E, como até hoje acontece em alguns programas, o meio de entrar na disputa, era adquirir, pagar e, ter a sorte de ser sorteado nos carnês do Baú da Felicidade.
Pois bem, uma Kombi, com vários vendedores, veio parar em Conceição de Macabu, possivelmente perdida de seu roteiro original, que, em geral, eram os grandes centros, como Campos, etc. Para não desperdiçar a viagem, os vendedores começaram a bater de porta em porta, até que um senhor, chegou a uma casa da Vila José Gomes, sendo atendido por uma senhora, mãe de três filhos, sendo um recém-nascido.
- É o último carnê, por favor, compre-o, a senhora não vai se arrepender. Falou o vendedor, apontando para a Kombi, onde todos os demais vendedores aguardavam o desfecho da negociação para ir embora.
- Tudo bem, eu compro. Falou a senhora, já imaginando a ladainha que ouviria do marido, um tipo cético em relação a qualquer forma de jogo.
Mal os vendedores se foram, chegou o marido, que, como já era de se esperar, fez pouco caso do carnê, achando que aquilo não ia dar em nada.
- Se fosse coisa boa eles mesmos ficariam com os carnês. Falou o camarada, zoando a cara da esposa. Isso é conversa de vendedor.
Algumas semanas depois, com a polêmica praticamente esquecida, o carteiro chega trazendo um telegrama (antigo sistema de mensagens rápidas, hoje, extinto), destinado a dona da casa:
- Dona Eliana, um telegrama para senhora, assine aqui por favor. Falou o carteiro, com um estranho sorriso entre os dentes.
Sem olhar o remetente e, achando ser coisa ruim, tipo morte ou doença de parente, dona Eliana contou até três para abrir a mensagem, enfiando-a no bolso.
- A senhora não vai ler? É da Tupi, do programa do Sílvio Santos. Falou o carteiro, sabendo de tudo, pois as mensagens eram de conhecimento geral, ainda mais em Conceição de Macabu.
Ao abrir, a surpresa: o carnê comprado por ela e alvo das gozações do marido, havia sido sorteado e, ela, estava convocada a participar do mais badalado programa de perguntas e respostas do país – sem falar que passagens aéreas, hospedagem e outras mordomias, tudo pago em São Paulo.
Só que alguns problemas: ameaçavam a participação: um desfile de Páscoa e o recém-nascido – pensava dona Eliana.
Ao chegar em casa, foi a vez de dona Eliana dar o troco nas gozações do marido:
- Viu Milton, você fez pouco caso da minha compra, fui sorteada, sou uma pessoa de sorte.
- E como é que você vai? Vai largar o bebê com quem? E o desfile de Páscoa, quem vai concluir os arranjos no carro alegórico? Argumentou o sempre cético marido.
- Você, respondeu dona Eliana. Eu fico com o bebê, cuido da arrumação do carro, participo do desfile e, você vai lá, que nós assistiremos daqui.
E assim se fez, de Macabu para o Rio, do Rio, ponte aérea até São Paulo, carro, hospedagem... Domingo, o programa.
Seu Milton, como era mais conhecido José Miltonsiles de Ornelas Gomes, adentrou um mundo bem diferente do seu, onde artistas, câmeras-man, apresentadores famosos, diretores e produtores, vinham cumprimentar-lhe e dar-lhe boas vindas, como se ele já fosse do meio, fazendo-o recordar sempre de como fora bem tratado e simpaticamente recebido pelo “Homem do Baú” e sua equipe.
Programa iniciado, seu Milton, que era professor de Geografia, só deveria temer duas coisas: perguntas sobre Português e Esportes, dois itens que ele não dominava. Além disso, havia ainda outros dois temores a considerar: seus oponentes eram graduados em Engenharia, Direito, Odontologia e Medicina. Ou seja, o professorzinho de Macabu diante da TV, de todo o Brasil, a enfrentar adversários francamente favoritos ao prêmio.
E por falar em prêmios, eles não eram poucos, tratavam-se de eletrodomésticos, dinheiro, passagens aéreas e, o máximo naquela época: um carro zero quilômetro, um belo e cobiçado Fusca “Azul Pavão”, modelo 1976.
E em casa? E na cidade? E os parentes?
Por uns momentos, as poucas TVs de Macabu e arredores estavam apinhadas de gente, acompanhando o programa, seu Milton se transformara em celebridade, era o orgulho e o motivo de inveja, ao mesmo tempo.
Mas o programa começou, perguntas e mais perguntas, seu Milton seguia com sorte: Geografia, História, Atualidades, Ciências...
Qual o pico mais alto das Américas?
- Aconcágua, entre o Chile e a Argentina.
Quem liderou a independência dos EUA?
- George Washington
E assim foi, meia hora, uma hora, hora e meia, hora do intervalo... o programa caminhava para o último bloco, o decisivo, onde, o professor de Conceição de Macabu, um engenheiro de Brasília e uma advogada de São Paulo, fariam a finalíssima, disputando o mais invejado prêmio da TV brasileira: o Fusca, “azul pavão”, zerinho, zerinho.
Naquela época, os comerciais da TV eram longos, seu Milton, além de um lanche, aproveitou para ir ao banheiro. Ao sair, o contrarregra o avisou: só temos 30 segundos, apresse-se, por favor.
Como os estúdios eram grandes, seu Milton saiu apressado e, errou o corredor, ainda por cima, entrou na sala errada.
Estava perdido!
Que fazer?
Olhou para uma mesa a sua esquerda e, deparou-se com um papel onde se lia: Budapestense ou Budapestino.
O que seria aquilo? Pensou. Mas que importância tinha? Era melhor se apressar: saiu em disparada pelo corredor, até que foi encontrado pelo contrarregra:
- Seu José Miltonsiles? Perguntou. Onde o senhor se meteu? Vamos logo, já estamos no ar.
Entrou atrasado no auditório, para deleite do famoso apresentador, que sarcástico, aproveitou para comentar que seu “Miltonsiles estava atarefado”. Em seguida, ainda sob os sorrisos da plateia, resolveu perguntar-lhe pelo estranho nome – Miltonsiles – e, por sua estranha cidade – Conceição de Macabu.
Mais descontraído, o programa recomeçou: perguntas sobre TV para a advogada, esportes, para o engenheiro, Ciências para seu Milton. Empate, os três acertaram.
E assim foi: uma, duas, três rodadas, sempre empate.
Mas o programa tinha de ter um vencedor e, era para já. Um sorteio foi feito. Ele definia a ordem para responder a última pergunta, a decisiva. Que azar, seu Milton tirou a bolinha número 3, seria o último a responder, se os outros dois não acertassem.
E veio a pergunta final, sobre Português, outro azar de seu Milton, um assunto que ele não dominava.
- Senhores candidatos ao prêmio, valendo um Fuscão ano 1976, zero quilômetro: Quem nasce em Budapeste, a capital da Hungria é?
O primeiro a responder foi o engenheiro:
- Budapestiano – ele disse.
Resposta errada! O senhor está eliminado, receberá um prêmio de consolação.
A segunda a responder era a advogada:
- Budapestense – disse a mulher certa da vitória, já contando com o carrão.
- Sua resposta não está errada, mas há outra resposta, a senhora sabe qual é? Perguntou o dono do Baú da Felicidade.
- Não sei - respondeu a mulher, imaginando: se eu não sei, imagina o sujeitinho aí?!
- Bem, pelas regras do programa, vamos perguntar ao senhor Miltonsiles, lá de Conceição de Macabu, no Rio de Janeiro, meu conterrâneo (Sílvio Santos é carioca), por sinal. Se ele não acertar qual é a outra resposta, o prêmio é da senhora. Senhor José Miltonsiles Ornelas Gomes, quem nasce em Budapeste, a capital húngara, é?
Naquele momento, num flash de meio segundo, seu Milton lembrou daquela sala onde se perdera e, que sobre a mesa, havia um papel branco que ele quase ignorou.
- Budapestense e Budapestino! Afirmou, ou melhor, gritou.
Um segundo de suspense... de quem era o prêmio afinal?
- A resposta está... a resposta está...está CERTA! Seu Milton, o senhor é o grande vencedor do programa!
Pronto! O acaso foi generoso, por pura sorte, ao se perder, seu Milton encontrou o mapa da mina, ganhou o prêmio.
Festa no auditório, papel picado, abraços, palavras de agradecimento.
Tudo finalizado, Milton seguiu ao hotel, arrumou as malas, informou-se do próximo voo para o Rio de Janeiro, percebendo que, se não pegasse o avião que sairia daí há uma hora, teria de esperar até o dia seguinte.
Seu Milton correu, jogou tudo na mala, desceu correndo, pediu um Taxi e, já foi falando ao taxista:
- Meu voo parte em uma hora, se você chegar a tempo, te pago o dobro da corrida.
O taxista fez o diabo pelas ruas de São Paulo, todo tipo de ultrapassagem, mas chegou ao aeroporto há tempo.
Seu Milton, pagou o prometido, desceu rapidamente e, disparou pelo saguão do aeroporto, correndo com mala e tudo. Mas, o que ele não havia percebido é, que naqueles tempos de Ditadura, sua afobação e correria, primeiro pelas ruas de São Paulo e, depois pelo aeroporto, haviam chamado a atenção da Polícia, que, o interceptou e o deteve.
- O senhor, pare já! Gritou um oficial, fortemente armado, acompanhado de quatro soldados, pensando que prendia um terrorista ou fugitivo do Regime Militar. Revistem-no!
- Eu corri para pegar o próximo voo para o Rio – defendeu-se.
- O senhor está detido para averiguação – respondeu o oficial.
Nesse momento, um policial, que cochichava com outro, lhe perguntou:
- Não foi o senhor que ganhou um carro, hoje, na TV?
- Sim, fui eu e, preciso chegar em casa, não sou bandido.
O oficial olhou bem para seu Milton e disse:
- É verdade, você é o vencedor do programa, estávamos almoçando, assistindo e torcendo por você. Meus parabéns!!!
Abraços, cumprimentos...
- Mas e o meu voo? Vou perde-lo.
- De jeito nenhum: cabo, corra até o balcão da companhia, mande atrasarem a decolagem, diga-lhes que é uma ordem do oficial de segurança.
E, escoltado por uma segurança inusitada, que minutos antes queria prendê-lo, seu Milton embarcou para o Rio de Janeiro, seguindo para Conceição de Macabu, onde o carro foi entregue duas semanas depois.
Acesse para assistir/ouvir a história.
https://youtu.be/ntwjtNsXfJ8