24/11/2025
Há muito tempo, sonhava-se com a ideia de um museu ferroviário de grande porte - nos moldes de iniciativas consagradas ao redor do mundo, como os espaços de York, Baltimore e Pietrarsa. Naquele longínquo ano de 2014, o pátio da ABPF em Cruzeiro era praticamente um cercado com pouco mais de quinze locomotivas e vagões aguardando restauração na oficina, rodeado por pilhas de dormentes bi-bloco de concreto armazenados para rebitolagem e hoppers de bitola larga da MRS aguardando destinação. A estação da antiga EFMR era um esqueleto de uma obra pública inacabada, e o pátio com as linhas da RMV soterrado para dar lugar a um estacionamento irregular de automóveis.
Onze anos depois, o mesmo lugar parece praticamente irreconhecível. Os trilhos da Estrada de Ferro Minas e Rio ressurgem do esquecimento, os automóveis dão lugar aos trens, a centenária estação ferroviária, de 1884, retoma seu lugar na paisagem restaurada em suas formas e cores, suas plataformas apinhadas de passageiros e visitantes, as oficinas a todo v***r trabalhando incessantemente. E, no pátio, dezenas de exemplares de locomotivas, vagões e carros de passageiros de todas as eras, e que fizeram história nas principais ferrovias brasileiras. Resgatado e salvaguardado do maçarico de corte, da demolição, do desmanche, do vandalismo, da depredação e de iniciativas nocivas à preservação ferroviária, este rico acervo desponta hoje, em 2025, como a pedra fundamental do Museu Ferroviário Nacional de Cruzeiro - um espaço de memória pensado em preservar o legado dos mais de 170 anos da história das estradas de ferro do Brasil, e idealizado como tributo aos esforços de gerações de preservacionistas em quase 50 anos de atividade da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária.
O reconhecimento à memória de nossos pioneiros se traduz na formulação de nossa identidade visual: a escolha da locomotiva 215, da Rede Mineira de Viação, representa uma alegoria da primeira locomotiva em serviço ativo pela ABPF, e um símbolo da doutrina preservacionista da entidade: resgatar o passado de nossas ferrovias com fidelidade, precisão histórica, e - até onde vão as possibilidades - em plenas condições de funcionamento, possibilitando uma verdadeira experiência de imersão a passageiros e visitantes. A tocha acesa, por sua vez, representa a excelência e o compromisso com o conhecimento técnico e histórico de nosso campo de atuação, bem como a vanguarda da ABPF na produção do saber técnico, histórico e cultural de seu campo, amplo e acessível a todos que dele necessitam. O mapa do Brasil simboliza, por fim, o propósito de preservar o legado, a memória e a história das ferrovias de nosso país, que já possui a ABPF como a maior corporação de preservação ferroviária do Hemisfério Sul do planeta e destaca-se como o quinto país com maior abrangência das iniciativas de preservação histórica de suas ferrovias, atrás apenas do Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha e França.
O tão sonhado Museu Ferroviário Nacional está finalmente nascendo, após décadas de trabalho consistente e constante. E - o melhor de tudo - isso é apenas o começo. A todos os que de alguma forma contribuíram e contribuem para que isso esteja se tornando realidade, MUITO OBRIGADO!
Isso é ABPF, isso é preservação ferroviária!
Por: João Marcos S. Pinheiro
Historiador - Núcleo de Estudos Oeste de Minas/Associação Brasileira de Preservação Ferroviária
Arte e design © 2018 João Marcos S. Pinheiro/ABPF
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