06/04/2026
FRANCA NÃO PODE SE APEQUENAR
Mauro Ferreira, d´aprés Fausto Guilherme Longo
Recebi de um amigo um belo artigo do arquiteto Fausto Guilherme Longo, publicado na imprensa de Piracicaba. Longo é arquiteto, assessor especial da Presidência da FIESP e um dos fundadores do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Não o conheço, vi que tem ligações com Paulo Skaf e o MDB, é provável que tenhamos razoáveis diferenças políticas. No entanto, a força do seu texto e as ideias que apresenta sobre sua cidade são muito próximas às que tenho defendido em Franca. Desta maneira, com autorização do autor, peguei o artigo de Longo e substituí a palavra Piracicaba por Franca eliminando também algumas referências específicas daquela cidade. No mais, o texto é de Longo, gostaria que o lessem e comentassem.
“O enfraquecimento da vocação cultural de uma cidade não é apenas um problema administrativo. É um sinal de empobrecimento cívico que precisa ser enfrentado. Franca não é apenas uma cidade de 360 mil habitantes no interior paulista. Franca é uma construção histórica, moral e cultural que ultrapassa seus limites geográficos. Ao longo de gerações, nossa cidade consolidou uma identidade: a de um espaço onde a tradição convive com a inteligência crítica, onde a força econômica não sufoca a vida cultural e onde a civilidade se expressa também na coragem de pensar, discordar, criar e contestar. Essa singularidade não surgiu por acaso. Foi resultado de escolhas. De visão pública. De maturidade institucional. E de uma compreensão, hoje aparentemente enfraquecida, de que cultura não é ornamento: é estrutura.
Franca se tornou admirada não apenas por sua relevância regional, sua vocação educacional, seu peso industrial ou sua tradição agrícola. Tornou-se admirada porque soube oferecer algo mais profundo: um ambiente de liberdade. Um ambiente em que a crítica e a manifestação artística não eram tratadas como ameaça, mas como expressão legítima de uma sociedade viva, consciente e democrática.
Franca parece atravessar, de forma lenta e talvez até naturalizada por muitos, um processo de empobrecimento simbólico, de enfraquecimento de sua ambição cultural e de acomodação. O problema não está apenas na eventual precarização de políticas culturais, nem na menor ousadia das agendas oficiais, nem no esvaziamento de determinados espaços ou iniciativas. O problema mais grave é outro: a cidade parece correr o risco de perder a consciência sobre o valor daquilo que construiu. E quando uma cidade deixa de reconhecer o próprio valor, ela se torna vulnerável. Vulnerável ao conformismo. Vulnerável à mediocridade. Vulnerável à substituição de projetos de identidade por ações protocolares. Vulnerável à ideia, tão pobre quanto perigosa, de que cultura é adereço e liberdade é abstração. Não é. Cultura, em cidades com história, é um dos pilares da autoestima coletiva. É aquilo que diferencia uma comunidade apenas administrada de uma sociedade verdadeiramente consciente de si. Franca nunca foi apenas um território de rotinas. Sempre foi, ou deveria continuar sendo, um espaço de densidade cívica, de repertório cultural, de liberdade crítica e de altivez interiorana. Por isso, é desconcertante perceber o silêncio que muitas vezes cerca esse processo de apequenamento. Há um tipo de resignação que assusta. Como se o rebaixamento da ambição cultural fosse inevitável. Como se a perda de densidade simbólica fosse um efeito colateral irrelevante do tempo. Como se já não valesse a pena reagir.
Mas vale. E vale justamente porque Franca não é uma cidade qualquer. Ela carrega uma tradição que impõe responsabilidades. Responsabilidade às instituições públicas, que não podem tratar a cultura como departamento decorativo de governo. Responsabilidade às lideranças políticas, que precisam compreender que liberdade de expressão não se homenageia apenas em datas festivas — ela se protege no cotidiano, inclusive quando incomoda. Responsabilidade à imprensa local, que deve saber reconhecer quando o debate cultural se transforma em tema de interesse público maior. Responsabilidade às universidades, aos artistas, às entidades civis, ao empresariado e à sociedade organizada, que não podem assistir passivamente à erosão daquilo que deu singularidade à cidade.
É preciso dizer com todas as letras: Franca está em dívida com sua própria história. E essa dívida não será paga com cerimônias vazias, discursos protocolares ou reverências ocasionais ao passado. Ela só começará a ser quitada quando a cidade voltar a levar a sério sua vocação para a liberdade crítica, para a inteligência cultural e para a proteção de seus espaços simbólicos. Não se trata de saudosismo. Trata-se de responsabilidade. Não se trata de viver do passado. Trata-se de impedir que o presente se torne pequeno demais para o legado que recebemos. Nenhuma cidade perde sua alma de uma vez. Ela vai sendo esvaziada aos poucos. Pela omissão. Pela indiferença. Pela covardia de evitar temas incômodos. Pela falsa prudência que, no fundo, apenas mascara a desistência. A liberdade raramente desaparece de forma abrupta. Na maior parte das vezes, ela vai sendo reduzida por sucessivos gestos de desatenção. Vai sendo tratada como excesso. Vai sendo confinada ao simbólico. Vai sendo tolerada apenas enquanto não perturba. Franca sempre foi melhor do que isso.
É hora, portanto, de fazer uma pergunta simples e inevitável: Que cidade Franca quer ser? Uma cidade que administra a própria rotina com eficiência burocrática, mas abre mão daquilo que a tornava singular? Ou uma cidade que compreende que certos patrimônios, quando abandonados, não apenas se deterioram — desaparecem? A defesa da cultura, da liberdade crítica e da memória pública não pertence a um grupo ideológico. Não é pauta de facção. Não é capricho de artistas. É um compromisso com a civilização.
E Franca, pela história que tem, não pode se comportar como se isso fosse secundário. Ainda há tempo. Ainda há inteligência. Ainda há instituições respeitáveis. Ainda há artistas. Ainda há cidadãos capazes de compreender que o maior risco de uma cidade não é apenas perder recursos ou investimentos. É perder densidade. É perder identidade. É perder grandeza interior. Talvez seja justamente este o momento de um necessário puxão de orelhas — não movido por ressentimento, mas por compromisso. Um puxão de orelhas em uma cidade que não tem o direito de se apequenar por desleixo, por acomodação ou por mediocridade. Um puxão de orelhas em instituições que parecem ter esquecido que cultura não é luxo, mas salvaguarda. Um puxão de orelhas em todos nós, que por vezes assistimos em silêncio ao enfraquecimento daquilo que deveríamos defender com mais vigor. Franca não nasceu para o conformismo. Não nasceu para a irrelevância. Não nasceu para o silêncio. Nasceu para ser livre, crítica, culta e corajosa.
E se ainda nos reconhecemos nessa herança, então talvez tenha chegado a hora de defendê-la — antes que a cidade, por indiferença interna, comece a perder aquilo que nenhum discurso tardio conseguirá restaurar por completo: a sua alma”.