01/05/2026
Estou lendo Quarto de Despejo e sinto que Maria Carolina de Jesus não escrevia apenas palavras.
Ela escrevia peso, fome, cansaço, revolta, corpo.
Existe uma concretude muito forte na escrita dela.
O s**o na cabeça.
Os filhos nos braços.
O olhar no chão.
A tentativa diária de continuar viva.
E talvez seja isso que mais me atravessa:
ela não transforma a dor em espetáculo.
Ela observa, registra, continua.
Maria Carolina de Jesus escreveu o cotidiano de um jeito tão verdadeiro que parece que a vida ainda está acontecendo dentro do livro.
E acho especialmente bonito que a escrita dela tenha sido mantida como era, inclusive com os erros de português.
Porque existe ali uma presença tão viva, tão autoral, que corrigir demais talvez apagasse justamente a força da obra.
Isso faz o livro deixar de ser apenas literatura.
Ele também se torna uma obra de arte.
Ler Carolina tem me feito pensar que sobreviver também é uma forma de inteligência.
E que continuar sensível dentro de um mundo duro talvez já seja um ato de coragem.
PS: vesti Maria Carolina com um pedaço do céu, como ela disse que gostaria de fazer, por ser uma pessoa muito exótica.
Livro: Quarto de Despejo
Autora: Maria Carolina de Jesus 🤍