07/05/2026
O mal chegou e não havia defesa de plantão.
Esta pandemia nos ataca de várias maneiras. F**amos muito mais pobres e tristes. Ontem, ouvindo falas de Paulo Gustavo, destaquei uma: o sorriso está escondido, mas existe. O sorriso, geralmente expressão de algo bom, tem estado escondido para todos que pactuaram pelo coletivo. E me veio outra: rico ri à toa. E fiquei pensando que o riso ou sorriso são coisas tão boas, que não podem ser desperdiçadas. Não se pode rir à toa, chorar à toa, sofrer à toa. Freud, aniversariante, falou de trabalho do sonho, de trabalho de luto. Se este sofrimento todo de restrições, suspensões e morte de atos, projetos , sonhos e pessoas, se estas perdas todas não tiverem um digno trabalho de luto, um memorial na altura da memória, não saberemos "como será amanhã" (Didi/ João Sérgio/ O amanhã).
Choramos para recuperar a mãe, o peito, alguma coisa que se perdeu.
Rosangela Amaral de Almeida enviou suas crônicas escritas durante a pandemia de covid-19 para o projeto Testemunhos da Pandemia, realizado pelo Museu das Memórias (𝘐𝘯)Possíveis em parceria com o coletivo Testemunhos da Pandemia. Rosangela escreveu de março de 2020 a dezembro de 2021. Seu relato é profundo, difícil, verdadeiro. Nos lembra a dureza, a tristeza, a incompreensão do mundo naquele período especialmente difícil no Brasil por estarmos sob o poder de um governo genocida. Estes registros da Rosangela chegam até nós como uma ampulheta viva, onde cada grão de areia guarda um registro de memória deste tempo traumático. Um diário que faz pensar na obstinação de algumas performances artísticas que tentam capturar a passagem do tempo com o instrumento mais precioso que temos em nossas mãos: a linguagem. Um arquivo vivo dando forma a tantas dores mas também mostrando as estratégias que foi preciso inventar para sobreviver a tudo isto.
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