10/06/2026
Lapsos de segundos, mas suficientes para inquietar. Lembrei de uma frase, que voltou às bocas e cabeças: ninguém larga/ solta a mão de ninguém. Lembrei disso no contexto da ditadura, onde cortar a luz servia para desorientar e abater de forma mais fácil. Por isso se manter de mãos dadas fazia segurança e rede.
Enquanto isso um monte de assunto, importante para todos, continua solto, não se prende à mão. Nós, o povo, acordamos mais pobres a cada dia. Cada dia temos menos país, oportunidades, natureza, espaços.
A arte é um jeito de recuperar, na história, parte do que se solta.
Rosangela Amaral de Almeida enviou suas crônicas escritas durante a pandemia de covid-19 para o projeto Testemunhos da Pandemia, realizado pelo Museu das Memórias (𝘐𝘯)Possíveis em parceria com o coletivo Testemunhos da Pandemia. Rosangela escreveu de março de 2020 a dezembro de 2021. Seu relato é profundo, difícil, verdadeiro. Nos lembra a dureza, a tristeza, a incompreensão do mundo naquele período especialmente difícil no Brasil por estarmos sob o poder de um governo genocida. Estes registros da Rosangela chegam até nós como uma ampulheta viva, onde cada grão de areia guarda um registro de memória deste tempo traumático. Um diário que faz pensar na obstinação de algumas performances artísticas que tentam capturar a passagem do tempo com o instrumento mais precioso que temos em nossas mãos: a linguagem. Um arquivo vivo dando forma a tantas dores mas também mostrando as estratégias que foi preciso inventar para sobreviver a tudo isto.
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