24/04/2026
No dia 24 de abril celebramos o Dia do Chimarrão e aproveitamos para contar um pouco desta história que começa com os povos Guarani e Kaingang. Antes das invasões portuguesa e espanhola, na região onde hoje estão os estados do Rio Grande do Sul, Paraná e parte do território paraguaio, a erva-mate circulava entre as diversas populações que habitavam este espaço. Chamada de ka’a pelos guaranis, as folhas da Ilex paraguariensis (nome científico dado à planta em 1820) “[...] eram especialmente utilizadas pelos indígenas ali estabelecidos para a produção de uma espécie de chá estimulante, denominado atualmente de ka’ay, originalmente mais consumido em contextos cerimoniais e religiosos. A erva-mate também era utilizada por outros povos indígenas para produzir bebidas semelhantes, inclusive entre comunidades originárias do Chaco e dos Andes, de onde a espécie não é nativa ou endêmica. A própria palavra mate, por exemplo, deriva do quéchua mati, vocábulo usado para designar o recipiente – geralmente uma cabaça ou porongo – onde era preparada e servida a bebida.” (Oliveira; Esselin, 2015). Com a colonização, a prática chegou a ser proibida pelos jesuítas. No entanto, ao perceberem a importância social e econômica da exploração da erva, passaram a fomentar o plantio em suas reduções, contribuindo para a disseminação da bebida pelo território. A população indígena por muito tempo foi importante produtora de ka’a, mas a perda de seus territórios e a concorrência com outros produtores afastou os povos indígenas do cultivo.
Recentemente, na Teko'a Anhetenguá, na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, foi realizado o primeiro karijo (preparo artesanal de erva-mate) pela comunidade Mbya Guarani, a partir de uma iniciativa que “busca revitalizar saberes e fortalecer a identidade cultural da comunidade Mbyá Guarani e que integra o Projeto Ar, Água e Terra, realizado pelo Instituto de Estudos Culturais e Ambientais (Jornal do Comércio, 2025) A ação visa também garantir autonomia e sustentabilidade à Teko’a que, como outras aldeias da cidade, lutam pela manutenção, segurança e desenvolvimento dos territórios indígenas locais.
Imagem 1: Autor desconhecido Indígenas de tradição Guarani reunidos em uma roda de chimarrão, 1993. Acervo do MJJM. (7059f).
Audiodescrição: Fotografia horizontal em preto e branco. Ao redor de um braseiro, indígenas tomam chimarrão. Da esquerda para a direita, em um semicírculo, uma mulher e quatro homens. O último segura a cuia e a garrafa térmica está na sua frente. Sobre a brasa, uma chaleira e um bule. À esquerda, outro indígena, de pé, observa o grupo. Atrás, uma construção de bambu com uma pequena porta no centro.
Imagem 2: Studio Os 2. O amargo matutino. Acervo do MMJ. (album3_C25).
Audiodescrição: Fotografia horizontal em preto e branco. Sobre uma superfície plana, uma cuia de chimarrão com a bomba, uma chaleira e um chapéu. À esquerda, a cuia de porongo com a borda de metal, encaixada no suporte. À direita, a chaleira de alumínio desgastada pelo uso. Atrás, desfocado, o chapéu de palha.
Referências:
ALDEIA Mbyá Guarani de Porto Alegre realiza pela primeira vez a produção artesanal do chimarrão. JORNAL DO COMÉRCIO, Porto Alegre, 19 de set. de 2025. Disponível em: https://www.jornaldocomercio.com/colunas/pensar-a-cidade/2025/09/1218849-aldeia-mbya-guarani-de-porto-alegre-realiza-pela-primeira-vez-a-producao-artesanal-do-chimarrao.html.
BERNARDES, Aline Dias. O chimarrão como patrimônio imaterial gaúcho: os sentidos atribuídos ao desejo de preservação. Monografia (Graduação em Turismo) - Escola de Direito, Turismo e Museologia, Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Preto, 2021. Disponível em https://www.monografias.ufop.br/bitstream/35400000/3409/1/MONOGRAFIA_Chimarr%c3%a3oComoPatrim%c3%b4nio.pdf.
DIEHL, Isadora Talita Lunardi. O chimarrão é indígena! AMPUH, São Paulo. Disponível em: https://anpuh.org.br/index.php/blog-indigenas-na-historia-sempre-obrigados-ao-trabalho/item/8044-o-chimarrao-e-indigena.
OLIVEIRA, Jorge Eremetis de; ESSELIN, Paulo Marcos. Uma breve história (indígena) da erva-mate na região platina: da Província do Guairá ao antigo sul de Mato Grosso. Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 9, n. 3, p. 278-318, jul./dez. 2015.
O TESOURO arqueológico, os aldeamentos e o trabalho indígena em Porto Alegre. Matinal News, Porto Alegre, 20 jun. 2021. Disponível em https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/desapagapoa/o-tesouro-arqueologico-os-aldeamentos-e-o-trabalho-indigena-em-porto-alegre/. Acesso em 23/04/2026.