27/08/2026
💎 𝐀 𝐋𝐚𝐠𝐨𝐚 𝐠𝐚𝐧𝐡𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐮𝐦𝐚 𝐨𝐫𝐥𝐚💎
📸 1) Augusto Malta – 21/05/1919
📸 2) Ponto de vista semelhante no século XXI
Ipanema crescendo, Leblon começando a ser mais procurado, olhos abertos para a Lagoa Rodrigo de Freitas.
Estamos em 1919, vendo as obras de construção da orla da lagoa, aproximadamente na região da antiga Praia Funda.
Ali seria implantada a via que contornaria boa parte da Lagoa e que conhecemos atualmente como Avenida Epitácio Pessoa.
E, sim, havia praias na Lagoa.
Praia Funda, Praia da Piaçava, Praia do Pinto e outras denominações aparecem em diferentes épocas. A linha d'água também era bastante diferente da atual e, neste trecho, avançava praticamente até os pés do Morro do Cantagalo, chegando à região próxima da antiga Rua Montenegro, atual Vinicius de Moraes.
Grande parte do terreno que vemos hoje entre o morro e a Lagoa simplesmente não existia.
A transformação vinha sendo produzida por sucessivos aterros, muitos deles realizados sem qualquer planejamento geral ou mesmo autorização. Era uma prática recorrente: dragava-se terra e lodo do próprio fundo da Lagoa e o material era utilizado para conquistar terreno sobre suas margens.
Mas esta obra da foto fazia parte de uma intervenção muito mais ampla.
O Rio já estava, desde meados da década de 1910, com os olhos voltados para as comemorações do Centenário da Independência, em 1922.
Isso não signif**a que todas aquelas obras tenham sido concebidas exclusivamente para a futura Exposição. Muitas procuravam resolver problemas urbanos antigos e bastante reais.
Mas eventos desta dimensão costumam fazer uma enorme diferença: criam urgência política e, principalmente, ajudam a fazer aparecer orçamento para que projetos há muito necessários finalmente saiam do papel.
Foi neste ambiente que o engenheiro Paulo de Frontin assumiu a Prefeitura do então Distrito Federal, em janeiro de 1919.
Ficaria apenas até julho daquele mesmo ano, mas iniciou e acelerou uma quantidade impressionante de intervenções pela cidade, várias delas continuadas pelas administrações seguintes, inclusive com importante participação do engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, e integradas ao grande processo de transformação do Rio para 1922.
Na Lagoa há um problema particularmente complicado.
Apesar de ser formada principalmente pelas águas doces dos rios que descem das encostas do Corcovado — entre eles o Rio dos Macacos —, a Lagoa Rodrigo de Freitas possuía comunicação natural com o oceano.
Era, portanto, uma lagoa de águas salobras.
Só que essa comunicação com o mar não era permanente.
A abertura fechava-se com areia e precisava ser novamente desobstruída, comprometendo a renovação das águas. O resultado era um problema que atravessaria gerações de cariocas: as recorrentes e enormes mortandades de peixes, com registros desde o século XVIII.
Um dos objetivos das intervenções iniciadas naquele período era justamente estabelecer uma comunicação permanente entre a Lagoa e o mar, melhorando a circulação e renovação de suas águas.
Era uma obra de saneamento, mas também de urbanização.
Ao mesmo tempo em que se trabalhava na comunicação com o oceano, construía-se uma nova margem para a Lagoa, aterrando trechos, regularizando sua orla e abrindo a avenida que passaria a acompanhá-la.
É justamente uma parte dessa transformação que Malta registrou nesta fotografia de 1919.
Mais de cem anos depois, sabemos que o problema foi bastante reduzido, mas nunca completamente eliminado.
A comunicação com o mar continua sendo fundamental para o equilíbrio da Lagoa e o canal ainda sofre com assoreamento e obstruções, exigindo intervenções periódicas para permanecer funcionando.
Ou seja...
Mais de um século depois de Paulo de Frontin, de Saturnino de Brito, dos aterros, dragagens, canais e de uma quantidade enorme de engenharia empregada para tentar resolver o problema...
Ainda é preciso manter permantentemente um horroroso guindaste alí para desentupir o negócio. 😁
E lá se vão mais de 100 anos, orla está aí, é bela. O Jardim de Alah, aterro que margeia o canal, está aí entregue e sendo usado pela sociedade, disputado para saber quem vai gerí-lo.
O canal, de fato, não foi solução final.
As obstruções seguem a cada maré mais forte ou ressaca, comuns numa praia aberta oceânica, e demoram dias / semanas para serem resolvidas.
Além disso, em 1809, a Lagoa Rodrigo de Freitas possuía um espelho d'água de aproximadamente 4,4 Km2. Atualmente é de apenas 2,2 Km2.
Sim, metade aterrada ... E, como colocamos acima, muito (mesmo) disso de forma ilegal.
E, sem purismos, sabemos que o crescimento implica em mudanças e elas precisam acontecer. O agora vai deixando de ser como antes.
Mas f**a sempre a pergunta:
Valeu realmente a pena? Precisava tudo isso mesmo?
Nunca haverá consenso.
Abraço carioca!
(@𝘢𝘯𝘵𝘰𝘳𝘢𝘮𝘰𝘴.𝘳𝘫)