26/10/2021
Memoria Esquecida da Fazenda Colubandê
São Gonçalo,25 outubro de 2013.
A Fazenda Colubandê, bem tombado pelo IPHAN, é indiscutivelmente o mais importante e bem preservado conjunto arquitetônico do século XVIII localizado no município de São Gonçalo. De valor inquestionável é natural que se torne objeto de diferentes interesses e calorosas discussões. Desde o seu tombamento passou por diferentes ocupações institucionais até o aquartelamento do Batalhão da Polícia Florestal e Meio Ambiente no ano de 1988 que desde então via realizando suas ações, dentre elas a de guardar a integridade do bem garantindo sua secularização para futuras gerações.
Cabe ressaltar que a história mais remota e mesmo mais recente do município de São Gonçalo dá testemunhos incontáveis de desdém pela valorização e preservação da sua Memória. Oportuno registrar alguns exemplos, dentre muitos que se têm:
1. Igreja Matriz de São Gonçalo de Amarante: Este bem, datado de 1645, é o primeiro a encabeçar a lista dos edifícios históricos que não são tombados por nenhuma esfera (Municipal, Estadual e Federal), apesar de estar ligado diretamente à história de fundação da cidade e que só por isso bastaria a sua preservação. Lamentavelmente a referida igreja encontra-se absolutamente descaracterizada e subtraída de seus elementos estilísticos de época; e não há nada que indique que haja movimentos no sentido de reverter o quadro, tanto no que diz o tombamento quanto à restauração;
2. Capela de Nossa Senhora da Luz: Outro valioso bem, datado de 1647, é o segundo exemplo de edifício histórico que também encontra-se aquém da valorização de sua capital importância. O processo de tombamento encaminhado ao IPHAN, está até o momento sem efeito, uma vez que abriu-se exigência até agora não cumprida. Além disso, o fato mais recente é que a mesma encontra-se inacessível para visitação de grupos em horários livres. Ocorre que a pessoa que era responsável pela manutenção da Capela e pelo recebimento de grupos, depois de mais de meio século dedicado ao zelo do referido bem destituiu-se da função no mês de agosto do corrente ano. Deste modo, não existe até o presente novo responsável ficando o edifício fechado para as referidas visitas. Somado ao exposto, duas imagens do século XVIII, uma de São Gonçalo de Amarante e outra de Nossa Senhora foram, no mês de janeiro deste ano, “retiradas para restauro” sem qualquer registro e até agora não devolvidas. Sem contar as inúmeras obras de arte também desaparecidas da Capela, cabendo citá-las: Imagem de Nossa Senhora da Luz (século XVII); Medalhão de Sant’Ana Mestra (século XVIII), Medalhão de São José, Menino Jesus e São Joaquim (século XVIII); Oratório (século XVIII); Tela com pintura a óleo de Nossa Senhora da Luz (século XIX).
3. Fazenda Quintanilha: Bem histórico datado de 1754, encontra-se abandonado sem nenhum tipo de implemento cultural ou mesmo produtivo, e hoje sob a “guarda” do Comando Vermelho. É interessante que este Bem, em particular, não é mencionado em nenhuma Carta Aberta e muito menos requisitado para atividades culturais, esportivas, ambientais...
4. Fazenda Engenho Novo do Bom Retiro: Outro relevante patrimônio histórico, datado de 1818, completamente arrasado, se não, quase todo destruído. Apesar de seu tombamento pelo INEPAC em 1998 a ausência do poder público deixou ruir parte da história do município.
5. Capela de São João Batista: Capela datada de 1871 e apesar de sua antiguidade e importância para a Memória de São Gonçalo, também é outra que não se encontra tombada por nenhuma esfera.
6. Imóvel onde nasceu a Umbanda: Berço da Umbanda no Brasil, apesar de seu valor cultural religioso, não teve o devido reconhecimento e assim sendo, em episódio recente e amplamente divulgado pela mídia, foi completamente arrasado não só do cenário urbano da cidade como também da Memória de São Gonçalo.
7. Palacete do Mimi: Construído em 1910, o significativo exemplar de arquitetura Eclética, ignorado o seu valor arquitetônico pelo Pode Público foi extirpado do cenário urbano e cultural. Ruiu não deixando vestígios de um importante estilo de época.
8. Imóvel localizado à Rua Dr. Porciúncula, nº 415 – em Venda da Cruz. Construído em 1920, o importante exemplar arquitetônico de estilo Art Nouveau foi outro exemplo de desmantelamento da Memória gonçalense. Abandonado, foi recentemente arrasado com pá mecânica (leia-se trator) para resultar em terreno livre para uma possível nova edificação. Mais um bem pulverizado da Memória do município.
Os exemplos poderiam se estender, até porque os Bens culturais perdidos e comprometidos vão muito além de uma breve lista. Entretanto, servem para revelar o quanto que o Poder Público encontra-se aquém do que poderia e deveria fazer para a valorização e Preservação da Memória.
Desta forma, cabe refletir sobre quais ações culturais devemos clamar para os cidadãos de uma cidade onde constantemente a Memória é apagada, quando não extirpada deixando vácuos e comprometendo a auto-estima e o sentimento de pertencimento.
A Fazenda do Colubandê, neste contexto, é um Bem que se destaca neste árido campo de ações preservacionistas em São Gonçalo. Sua integridade nas últimas décadas tinha sido garantida, indiscutivelmente, graças ao comando de uma Força que se mostrava plenamente responsável e, sobretudo, comprometida com a sua preservação. O Batalhão da Polícia Florestal e Meio Ambiente, que fora aquartelado no complexo, além de realizar ações compatíveis com o seu ideal, impecável e competentemente cumpria de forma exemplar com algo que o Poder Público poderia se espelhar. Os exemplos citados dão provas da ausência de movimentos público ou privado, jurídico ou físico de intenções preservacionistas.
Assim, o extinto Batalhão da Polícia Florestal e Meio Ambiente orgulha-se hoje , na atual conservação da Fazenda Colubandê, de realizar suas funções comprometidas com os seus princípios e ética ao mesmo tempo em que zelava por um patrimônio de reconhecido valor evitando que se apague da Memória de São Gonçalo e do país como tantos outros, conforme os supracitados.
Não é demais registrar que o extinto Batalhão da Polícia Florestal e Meio Ambiente por entender a importância da guarda da Memória Cultural Brasileira , ao longo de mais de duas décadas, manteve um Departamento de Difusão Cultural responsável por ações como:
Atendimento ao público externo
Pesquisas acadêmicas, monografias, Teses de Mestrado,Regional , Nacional e Internacional
Semana do Meio Ambiente
Visitação orientada para alunos das redes pública e privada de ensino; Fundamental, Médio, Superior
Gincanas de artes plásticas, além de exposições de carros antigos;
Festejos do dia da Criança e Natal; além de outras.
Diante do exposto é importante refletir porque motivo os manifestos, via cartas abertas, não abordem soluções para os graves problemas apontados no cenário histórico cultural do município de São Gonçalo.
Por que pensar em requerer um único Bem cultural para uma nova administração quando se têm tantos outros Bens entregues à própria sorte, sem ações que visem sua secularização e reconhecimento de seu devido valor?
Por que não vemos com frequência manifestos, via cartas abertas, para a preservação dos bens culturais do município e sugestões. É no mínimo questionável, não é mesmo?!
É importante pensar que mais que querer administrar um Bem especificamente, é mais significativo Somar Forças para o benefício do coletivo. Assim, pode-se pensar ao invés de requisitar a Fazenda do Colubandê para a gerência de um novo grupo institucional podemos imaginar parcerias para potencializar ações culturais (artísticas, esportivas, turísticas, ambientais, etc) que já foram realidade há mais 30 anos no complexo.
Enquanto o município e o Estado não apresentar estratégias que revertam as condições apontadas neste manifesto, conferindo-lhe confiança e segurança; enquanto não frutificar inúmeras cartas abertas visando medidas preservacionistas para mudar o quadro dos bens abandonados, seria melhor criar um consenso de ideais comprometidos exclusivamente com a cultura, com a participação popular, privada, e governamental e deixar a Fazenda do Colubandê de fazer parte de propagandas políticas e conhecidamente tentar salvar o único Patrimônio Histórico Nacional, gonçalense, com esse novo modelo de administração apolítico e com certeza geraria competências.
Somemos forças ao invés de enfraquecê-las.
Reginaldo Pinto
Ex Relações Públicas da Fazenda Colubandê(BPFMA) 21 999633863 WhatsApp