Edy Braun, uma artista das múltiplas artes
“Me encanto ao pintar e nesse exercício percebo mais de perto a substância do mundo e o sentido que faz o texto da vida... E desse modo me gasto tal qual a natureza e a natureza humana me pedem. Traço um risco, riscando um traço e o traço do meu risco é o risco do meu traço, que traça riscos, riscando traços, que é o risco que me arrisco. Risco? Ora se t
raço.” Assim a mulher das múltiplas artes define a si própria em poesia. Ela é conhecida como Edy das Graças Braun, mas como a maioria dos artistas possui seus pseudônimos e outras identidades. A artista plástica é Tayaa. A escritora e poeta foi durante muito tempo Dy Graças e França, enquanto era apenas uma ensaísta e escrevia crônicas e reportagens para um jornal. Uma mulher autoinspirada, direta nas palavras, simples no viver, filósofa do ser, inebriada de vida e incansável no fazer, que se emociona, sinceramente, com a homenagem que recebeu recentemente em Toledo, quando seu nome virou concurso de contos e poesias. Edy abriu as portas da sua casa, do seu ateliê e da sua vida para a reportagem do Friends, que revela aqui um pouco da história de uma mulher intensa em ser e no inventar...
Infância e adolescência: a natureza que inspira... Edy Braun nasceu em Pato Branco na década de 50 e lá cresceu entre a natureza e as brincadeiras inerentes à arte
Eu digo que nasci defeituosa, pois sempre tive gosto pela arte. As pessoas acham que o artista nasce artista, mas o artista nasce com habilidade, se não desenvolver isso não serve para nada. Eu lembro que quando criança eu já pintava, misturando aquele pó preto do fogão à lenha com banha, porque minha mãe não podia comprar. E depois eu comecei a usar saibro, barro de poço, pois perto de casa tinha muito e eu notei que ele era colorido, tinha verde, marrom, avermelhado, só não tinha azul. Eu sempre dava um jeito de pintar. Eu lembro que quando estudava no colégio das freiras, a professora de belas artes exigiu material de pintura e minha mãe falou: “eu vou comprar um pincel, uma bisnaga de tinta, uma telinha e é a única coisa que posso fazer e você tem que aprender tudo que precisa com isso”. E assim eu fazia e desmanchava, ajudava os colegas para ganhar um restinho de tinta. Acredito que a partir daí o processo começa a ser criativo, pois quando você tem pouco material, tem que ter imaginação. Eu sempre notei ao longo da vida que o mais difícil era o que mais aperfeiçoava. Cantar a vida...
Meu sonho era ser cantora. Eu declamava desde a infância, eu fui solista de coral. Bem
criança mesmo eu cantava nos programas de calouros que apareceram no cinema, tanto que os primeiros eletrodomésticos que teve em casa foi porque ganhei nesses programas. Depois fui líder estudantil, participei da Voz do Estudante, um programa de rádio que tinha na escola. Eu cantei enquanto pude, depois eu comecei dar aula e a voz estragou. Escrever o sonho...
Versos eu também escrevo desde a infância. Comecei a fazê-los até mesmo antes de saber escrever, ficava declamando pela casa. Não sou boa desenhista. Eu tenho a impressão que tudo o que faço é para mostrar que a gente está no mundo interado com ele e a gente refaz o mundo e se refaz nele constantemente. Por isso, eu sou
encantada com a “fazedura”, gosto do fazer e não faço para mostrar para ninguém. Eu faço para me encantar com o que eu faço e o olhar dos outros é um brinde. Não sou exibida, eu sou encantada e não tenho vergonha do que faço. Belo ou não. Goste ou não, eu não importo também, pois para mim, a arte é viver. E desenhar a imaginação
Eu sempre gostei de montar, de pintar, murais, entalhe. Eu tenho impressão que fiz mais de 100 cursos ao longo da minha infância e adolescência. Tudo que era gratuito, eu fazia. Eu tive uma infância do interior, tinha verdadeira paixão pela chuva, inclusive o que mais pinto é água, o som da água é de renascimento e ajuda a pintar melhor. Eu não pinto por encomenda, eu pinto, quando não tenho outra motivação eu pinto água. O estado de espírito determina muito o traçado, a cor e todo dia estou criando alguma coisa. Vida adulta: Toledo na sua história... A artista, ainda somente professora e entusiasta das artes, iniciou a jornada em Toledo lecionando, aprendendo e ensinando a arte de viver e se reinventar
Faz 33 anos que estou em Toledo. Viemos para cá meu marido João Afonso e eu para lecionar no Ensino Médio. Dei aula de historia, ciências, geografia e fundamentos da educação, pois conclui o curso de Ciências Físicas e Biológicas, mas não fiz os exames finais. E para me enturmar na cidade eu fui fazer Filosofia, porque toda a sociedade organizada de Toledo estava na Facitol na época. E de lá estou saindo só agora que estou me aposentando. São 30 anos de docência, vi a universidade crescer, se tornar Unioeste e fui a primeira aluna a ser professora na universidade, dava aulas de Estética e Cosmologia. Tudo envolvido com arte. Apesar de tudo, havia que se considerar artista e foi nas cadeiras da academia que
ela se redescobriu
Hoje eu sou artista plástica e minha arte se paga, mas antes não era assim. Até que um dia, em 87 por aí, estava dando aula de Estética para uma turma nova na Unioeste e um aluno olhou para mim e falou: “profe, você fala maravilhosamente bem, a gente fica encantado quando você abre a boca, sabe fazer arte?”. E aquilo me tirou o chão. Era provocação, ele não estava me criticando. Eu pensei: “bom, se a ideia está completa, está bonita de ser dita, ela deve ser passiva de ser feita”. Fui para casa e pensei em tudo o que sabia de estilo de arte, do modernismo, do acadêmico, futurismo e qual era importância dessas coisas. Descrevi tudo e depois fui pesquisar as tendências, a filosofia das artes o que se falava do impressionismo, expressionismo, academicismo, romantismo, parnasianismo, todas as tendências das artes. Eu fui da literatura à história da arte, cruzei as coisas e anotei o essencial, características, traços, cores. Comprei tinta guache para ver se era habilidosa, porque era uma experiência, e se você é habilidosa qualquer material serve. Comprei três cores só: azul, amarelo e vermelho e fiz todas as tendências da arte com essas tintas. Então, comprei um papel bobina, escrevi tudo o que tinha pesquisado e colei na maior sala da Unioeste. Chamei três professores que tinham feito Escola de Belas Artes para eles verem se correspondia o que eu tinha pintado com as tendências e só houve duas correções. Um dos professores disse: “Edy você é uma artista”. Depois convidei meus alunos e fiz a mesma experiência estética com eles. Fizemos uma exposição na Unioeste e colocamos para avaliação de bons para comprar e expomos para venda. Os dez meus foram vendidos. Assim, comecei profissionalmente. Variações de arte e a influência familiar
É muito variado o que produzo. Meu avô e minha mãe cantavam muito e os versos sempre tiveram presente na minha vida. Leio muito e isso me ajuda a escrever. Lembro que na infância eu lia muito fotonovela e minha mãe dizia que aquilo era porcaria, a minha avó falava: “se ela não ler porcaria, como vai saber que é porcaria”. É muito legal essa fala da minha avó. Então, fui uma leitora assídua. Os livros didáticos da escola minha mãe não podia comprar, então eu emprestava para ler no fim de semana. Ler faz parte da formação humana, quem não lê não se reconhece. E a escrita para mim é algo de mais humano. Assim, acho que todos me influenciaram: a natureza por ter crescido com essa interação próxima, meus avós e minha mãe. Eu sou filha de mãe solteira e sofri muito na infância quando diziam: “aquela menina que não tem pai”. Mas ao invés de me sentir vítima, eu resolvi encarar e ter alguma coisa melhor que os outros. Assim, tudo que fiz foi bem feito e esse esforço para fazer bem feito e me agradar foi para compensar os desagravos da vida. Eu faço o melhor que posso, eu sou perfeccionista. Algumas coisas me inquietam ainda, porque sou muito rápida. Se eu quero escrever e, nem que eu não queira, eu escrevo, não fico pensando. É uma dinâmica de tanto exercitar que hoje se tornou natural. Acho até que é até uma descompensação. Mãe de três filhos, Adriano, Alexandra e Lucas, membro da Academia Toledana de Letras e do Clube da Poesia, Edy tem mais três mil textos escritos. Algumas das suas poesias integram a publicação “Olhares Diversos”, uma homenagem da Unioeste. Acaba de mandar a obra “Essa Tal Filosofia” para o Concurso da Literatura Paranaense. Ela é artista pelo prazer e o seu lado humano e mais perfeito, o da arte, foi, recentemente, reconhecido com o 1° Concurso de Crônicas e Poesias Edy Braun...
Eu fiquei contente especialmente por um motivo: é a segunda vez que fazem uma homenagem a alguém que é vivo em Toledo. A primeira foi para Diva Barth. A importância é essa, que estou viva para conversar com as crianças e adolescentes para eles verem como é natural. As pessoas podem conversar comigo, ver como faço, eu ensino a fazer. No ano retrasado, por exemplo, as irmãs levaram as crianças do pré para me entrevistar, saber porque eu escrevo e porque eu pinto. E as crianças me olhavam com tamanho encantamento, elas punham a mão no meu rosto e diziam: “você é de verdade!”. Por isso me alegrou muito a homenagem. E eu não precisei morrer para isso. Parece que o mundo da literatura é um mundo separado da vida real. De verdade, foi uma delicadeza da Silvia Moreira da Cruz e da Carmem Luiza Carletto
[servidoras da Biblioteca Pública da Vila Pioneira], que foram minhas alunas e devo ter mostrado que essas coisas valiam a pena. Hoje, encontro pessoas na rua e dizem: “Edy, vou participar do teu concurso”. Mas na verdade não é meu concurso, o concurso é da Biblioteca, da Secretaria de Educação.