04/09/2026
COCHE & DESCOCHE 🔍
Dois bens. Uma linguagem decorativa.
O que poderá aproximar uma garrafa de faiança de um coche de aparato?
À primeira vista, quase nada. Mas um olhar mais atento revela algumas afinidades: a presença de heráldica, os motivos vegetalistas, as flores, os enrolamentos e as aves.
A garrafa de faiança, produzida em Lisboa em 1641, é particularmente significativa: realizada apenas um ano depois da Restauração da Independência de Portugal, apresenta, numa das faces, uma cartela com as armas reais portuguesas e, na outra (não apresentada nesta publicação), uma ave entre flores. No gargalo, os caracóis barrocos completam a decoração.
Num período de afirmação da identidade portuguesa, a heráldica assume um papel fundamental: as armas reais são também sinais de pertença, poder e afirmação política.
Cerca de duas décadas depois, no Coche de D. Maria Francisca de Sabóia (V 0002), de 1660–1666, esta riqueza ornamental surge à escala da representação régia. Festões, grinaldas, folhagens, flores e enrolamentos articulam-se com a escultura dourada. Na porta, os brasões de Portugal e Sabóia-Nemours evocam a ligação de D. Maria Francisca à monarquia portuguesa e à sua casa de origem. Nos pequenos painéis inferiores, uma águia com um ramo de oliveira no bico surge entre grinaldas.
Dois bens, duas funções, duas escalas — afinidades que revelam uma cultura visual comum no Portugal seiscentista.
COCHE & DESCOCHE — aproximar bens diferentes para descobrir o que têm em comum
Coche de D. Maria Francisca de Sabóia
1660–1666
Museu Nacional dos Coches
Inv. V 0002
Garrafa
Lisboa, 1641
Faiança, pintada a azul
Museu Nacional de Machado de Castro
Inv. 3451; C82