28/05/2026
BCM | BIBLIOTECA CENTRAL DE MARINHA
100 anos do Golpe de Estado de 28 de maio de 1926
Hoje assinala-se 100 anos do Golpe de Estado de 28 de maio de 1926, uma revolução de natureza militar iniciada em Braga, e liderada pelo general Gomes da Costa e pelo comandante Mendes Cabeçadas. Este movimento derrubou a Primeira República Portuguesa, pondo termo ao regime republicano parlamentarista e dando origem à Ditadura Militar.
Para compreender este movimento é indispensável proceder a uma contextualização do panorama nacional da época. A Primeira República ficou profundamente marcada pela instabilidade política, económica e social. A instabilidade política é evidenciada pela sucessão de 45 governos ao longo de apenas 16 anos, num quadro de acentuada fragmentação partidária, em que as quedas do governo eram frequentes, muito em virtude do amplo poder do Congresso – o atual Parlamento. Revoltas, conspirações e tentativas de golpe de Estado tornaram-se recorrentes, fomentando um clima de agitação social e militar que refletia um descontentamento generalizado. A já frágil situação económica agravou-se com a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial: a inflação aumentou significativamente, tal como a dívida pública, e a escassez de bens essenciais contribuindo para o aumento da contestação social e das greves.
Os primeiros anos da década de 1920 em Portugal caracterizaram-se, assim, pela persistência da agitação, do descontentamento, da instabilidade e da insegurança. No período de crise que se seguiu ao conflito mundial, sucediam-se demissões dos ministros e quedas de governo, enquanto se intensificava o sindicalismo revolucionário, acompanhado de atentados à bomba e repetidas tentativas de golpe de Estado. Destaca-se o episódio conhecido como «Noite Sangrenta», protagonizado por marinheiros e arsenalista que assassinaram figuras relevantes do governo, como António Granjo, o então presidente do Ministério, e Machado dos Santos, uma das figuras emblemáticas do 5 de outubro de 1910. Esta insurreição teve como líder o coronel Manuel Maria Coelho, evidenciando a existência de células revolucionárias no seio das forças armadas.
Não obstante o agravamento da situação nos últimos anos do regime, importa salientar que diversas medidas adotadas desde a implantação República haviam já gerada forte contestação em vários setores da sociedade. Entre elas destaca-se a chamada Lei da Separação, que visava a separação entre a Igreja e o Estado, provocando profundo descontentamento nas fações mais conservadoras e rurais, num contexto em que a sociedade portuguesa era marcadamente católica.
Este ambiente constituiu o prelúdio da revolução que viria a concretizar-se a 28 de maio de 1926, com início em Braga e protagonizada pelo general Gomes da Costa, contando no dia seguinte com a adesão do comandante Mendes Cabeçadas em Lisboa. Embora de matriz militar, o movimento beneficiou igualmente de apoio popular, deixando Bernardino Machado, então Presidente da República, progressivamente isolado. Em Lisboa, a guarnição aderiu à sublevação, tal como diversas figuras públicas passam a apoiar a causa, culminado na formação da Junta de Salvação Pública.
Na tarde de 29 de maio, João Maria Ferreira do Amaral apresentou a demissão do Governo a Bernardino Machado. Na sequência deste acontecimento, no dia seguinte, o poder foi confiado a Mendes Cabeçadas, que concentrou em si todas as pastas governativas e ordenou o encerramento do Congresso da República, pondo termo ao parlamentarismo português.
Em conclusão, o Golpe de Estado de 28 de maio de 1926 foi impulsionado por um contexto de crise generalizada que minava a legitimidade e a estabilidade da República. Tratou-se de uma revolta de caráter antiliberal, organizada pela ala militar mais conservadora e apoiada por setores significativos de uma população descontente. Esta sublevação deu origem à Ditadura Militar e impulsionou o estabelecimento do regime do Estado Novo, formalizado pela Constituição de 1933.
Imagem- José Mendes Cabeçadas Júnior, Oficial da Armada e um dos protagonistas do Golpe de 28 de maio de 1926, «Fotografias avulsas de Oficiais Ministros e Secretários de Estado.» cx. 13 PT/BCM-AH/FMA-FA/001-008/0001