A Arte CresSendo constitui uma das valências do projeto CresSendo, o novo núcleo de serviços inteiramente dedicados à optimização do crescimento pessoal e comunitário, em Braga. Consiste numa plataforma destinada a (1) visibilizar e promover intercâmbios teórico-práticos e experienciais, entre os domínios da Psicologia e da Arte, (2) projetar artistas e iniciativas/agendas culturais artísticas relevantes, e (3) oferecer um ponto de convergência entre todo o tipo de entidades com interesse na Psicologia e/ou na Arte. No número dos projetos contemplados pela Arte CresSendo contamos:
1: Divulgação informativa | Interseções: Arte & Psicologia: Publicação, em plataforma online, de informações variadas sobre os intercâmbios entre Psicologia e Arte (e.g., artigos de opinião, estudos, obras/peças), bem como sobre iniciativas/agendas culturais artísticas relevantes (e.g., cursos, workshops, exposições, concertos, representações dramáticas e cinema, castings e oportunidades). Neste âmbito se circunscreve a rúbrica ‘ARTES NO DIVÃ’, que compreende uma entrevista mensal a um/a artista, connaisseur/connaisseuse ou curioso/a acerca do pensar e fazer criativo, nos mais diversos domínios da expressão artística (e.g., literatura, poesia, música, dança, teatro, cinema, fotografia, desenho, pintura, grafitti, artesanato, escultura, serigrafia, fotografia, joalharia, antiguidades e restauro, tecnologias da informação e comunicação, design, conteúdos multimédia, gastronomia, artes performativas e artes visuais).
2: Incubadora Artística: Como incubadora artística, a Arte CresSendo objectiva: (i) propiciar um espaço de diálogo e reflexão para o encontro de diferentes pessoas interessadas na partilha de opiniões e conhecimentos teórico-práticos acerca de diversos temas de relevância artística-cultural (e.g., tertúlias, meetings, palestras), (ii) propiciar um espaço para a projeção de artistas (amadores e/ou profissionais) e seus trabalhos, (iii) favorecer a rentabilização do tempo livre através de actividades que enriqueçam a cultura (e.g., sessões de cinema); e (iv) incentivar à apreciação e à criação artística (cativar um público produtor e não apenas consumidor);
3: Encontros Criativos: Convívios informais, sem fins lucrativos, para todos os/as artistas, amadores/as e/ou profissionais, connaisseurs/connaisseuses e curiosos/as acerca do pensar e fazer criativo artístico, nos mais diversos domínios (e.g., literatura, poesia, música, dança, teatro, cinema, fotografia, desenho, pintura, grafitti, artesanato, escultura, serigrafia, fotografia, joalharia, antiguidades e restauro, tecnologias da informação e comunicação, design, conteúdos multimédia, gastronomia, artes performativas e artes visuais), motivados/as para apresentar, divulgar, criticar e debater produção criativa artística. Mais especif**amente, estes convívios objetivam: (i) proporcionar um espaço de diálogo, reflexão e partilha de opiniões sobre a criação artística; (ii) incentivar à apreciação e à criação artística, cativando e fortalecendo um público produtor no domínio criativo artístico; (iii) partilhar os trabalhos individuais e/ou coletivos já desenvolvidos; e (iv) criar um networking para os/as interessados/as em desenvolver projetos criativos artísticos individuais e/ou conjuntos, investindo assim na recuperação do contacto humano.
CARLOS MARINHO: UM PSICÓLOGO NO ESTÚDIO / UM CRIADOR NO DIVÃ
Viktor Frankl, fundador da escola da logoterapia, defendia que o sentido da vida só era passível de ser encontrado mediante uma tenaz investigação individual orientada pela questão: “o que é que eu devo fazer e que não pode ser feito por mais ninguém, absolutamente ninguém, excepto por mim mesmo/a?”. Para este autor, o sentido da vida demarca e fixa, num ponto determinado do tempo e do espaço, o centro da nossa realidade pessoal, de cuja visão emerge, límpido e inexorável, mas só visível desde o interior, o dever a cumprir – o nosso sentido de missão.
O projeto Arte CresSendo nasce do cruzamento entre dois dos meus principais ramos de atividade ocupacional: a psicologia clínica e a criação artística. Investindo, ao longo do tempo, em diversos campos do domínio artístico – quer de forma amadora, quer na esteira de formações específ**as –, além de psicólogo clínico passei também a definir-me como criador artístico freelancer, sob o meu próprio labelling «Carlos Marinho – Criador Artístico», e não é senão esta grata sinergia que hoje me reconhece plenamente realizado. Nem sempre, porém, o processo de conjugação das suas áreas se mostrou pacífico; com efeito, durante muito tempo, Arte e Ciência foram percebidas como antagónicas e inconciliáveis; só com os anos se viriam a completar no ofício de esclarecer, estruturar, solidif**ar e promover o meu próprio sentido de missão na vida.
Desde cedo, muito antes da Psicologia, encontrei na aprendizagem literária e filosóf**a a fonte de aquisição do meu mais persistente capital linguístico; de forma concreta, tive em Wilde um mestre na arte e na estética: “Em todos os domínios da vida, é pela forma que tudo começa. Os gestos ritmados e harmoniosos da dança transmitem ao espírito, diz-nos Platão, o ritmo e a harmonia simultâneos. (…) Encontrai a expressão de um desgosto e ele se vos tornará querido. Encontrai a expressão de uma alegria e ela se vos tornará um êxtase”. Se pensarmos no papel dos artistas ao longo da história, percebemos como eles atuam como comunicadores, dando voz aos sonhos e frustrações das pessoas, constituindo-se muitas vezes como a consciência da sociedade. Em primeira mão, deu-me a Arte a perceber que não há evolução pessoal sem o desenvolvimento de todos os canais, mecanismos e dinâmicas de expressão, que não existe vida sem criação e criação sem a possibilidade de transformação e reconstrução. Mais tarde, a Psicologia permitiu-me não só perceber-me dotado de todas as possibilidades para a minha auto-realização, e instrumentalizado internamente com todas as ferramentas necessárias para o desenvolvimento das minhas competências físicas, morais, pessoais, relacionais, sociais, intelectuais, interculturais, mas também ativá-las para ir actualizando uma versão cada vez melhor de mim mesmo.
Hoje, olhando em retrospectiva, sei que me não sintonizaria na frequência da continuidade histórica a que digo pertencer se arte e a psicologia me não tivessem educado a experiência do existir numa determinada lógica de compreensão e acção sobre mim, sobre os outros e sobre a própria vida, me não tivessem disposto o sentido dos meus passos na esteira deste esforço de auto-atualização. Pois é assim que me vejo: um work-in-progress, um perpétuo aluno que vai aprendendo a fruir cada vez melhor da vida, ciente de que fazê-lo é uma arte – ou melhor, um craft. Acredito no poder de me realizar a vários níveis, e que esses vários níveis precisam de ser expressos e realizados até ao seu máximo potencial.
“OS POETAS NÃO SERVEM PARA NADA” (FILIPA LEAL). OU SERVEM? | A SOCIEDADE DO PENSAMENTO OPERATÓRIO:
“Vivemos numa época caracterizada pelo pensamento operatório (raciocínio concreto, orientado para o real com interesse no atual e fatual) onde pouco se liga às emoções, não há ligação à atividade fantasmática, o pensamento está ligado à acção”. Esta, defende João Bucho, é a lógica que rege a moderna sociedade industrial na qual os indivíduos devem produzir num esquema racionalista, sem deixar as emoções e os valores pessoais interferirem no processo. Com o monopólio do capitalismo em crescimento, acrescenta, “somos constantemente bombardeados com o apelo ao consumismo de forma compulsiva, não sabemos bem de quê, mas consumimos. Aquilo que desejámos ontem, hoje o compramos e amanhã deixa de fazer sentido e f**a de lado. O consumo despersonif**a, cria modelos, modas, maneiras certas de nos comportarmos”.
Cada vez mais o sentido de valorização pessoal do ser radica não no valor das suas capacidades (e no uso que lhes pode dar), mas num parâmetro imposto desde o exterior (fora, portanto, do seu controlo) que lhe regula o valor em função de um (a)preço de mercado e da capacidade de atrair a atenção e investimento dos demais. Esta ideia leva, consequentemente, à sensação de impotência e de insegurança que propendem a debilitar o Eu individual. Mercadologicamente orientada, a pessoa eclipsa-se do que tenha de próprio e ao alienar-se do si-mesma, automatiza-se no processo de conformismo à coletividade. À medida que se lhe substitui um espírito de manipulação e instrumentalidade, também o relacionamento interpessoal sofre a perda do carácter direto e humano.
Na manutenção desta antropologia racionalista, a educação tem não raro como resultado a eliminação da espontaneidade, a supressão das emoções, e a substituição dos atos psíquicos originais por sentimentos, pensamentos e desejos sobrepostos ao desenvolvimento da individualidade genuína, fazendo as pessoas mais robotizadas e menos humanas. Na Arte CresSendo, pelo contrário, defendemos a multidimensionalidade e a pluridimensionalidade da expressão, pois defendemos uma abordagem holística, integral e global da expressão humana.
A SUPRESSÃO DAS EMOÇÕES E O ADOECIMENTO DO AFETO:
É ao supor-se que toda a realidade deve ser reduzida à mesma unidade do sistema racional pensado pelo Eu, nomeadamente tudo o que lhe é estranho – o Outro, que surge um dos problemas mais sérios que a atualidade oferece à formação das pessoas: o adoecimento do afeto, o défice na socialização, a dificuldade de procurar, iniciar e manter um diálogo, a estranheza diante do Outro, o desencanto perante o Outro, o isolamento, e a solidão. Na esteira da modernização social, os conteúdos da formação cultural básica começam a ser transmitidos com uma carga afetiva diferente, deficitária, muitas vezes omissa por indisponibilidade de uns e outros – e quanto mais subtil é a expressão do afeto mais facilmente duvidamos dele; sem uma adesão emocional suficiente aos adultos signif**ativos, o processo de aprendizagem das crianças e jovens vê-se perigosamente condicionado, senão mesmo impossibilitado. Um atento olhar analítico sobre os últimos cem anos de história societal mostrará a crescente diminuição do tempo real que os adultos passam com as crianças, a sua substituição por outras instituições (escolas, creches, centros de estudo) e/ou pela exposição (cada vez mais precoce) a meios de comunicação. Paradoxalmente, nunca antes se assistiu à proliferação de tanto meio de comunicação com tão pouca comunicação efectiva entre as pessoas. “Se as pessoas ousassem falar entre si sem reservas, haveria muito menos tristezas no mundo dentro de cem anos”. Por onde anda, que lhe fizeram, que histórias conta a omissa ousadia de que nos fala Samuel Butler?
Uma das mais consistentes matérias-prima para a criação de certas obras encontro-a na exploração da relação de ajuda terapêutica que sustento na minha prática profissional. Estar no sofrimento alheio para compreendê-lo, e possibilitar que quem o experiencie ative recursos e desenvolva meios para ressignificá-lo, dá-me acesso privilegiado aos bastidores das máscaras invisíveis do dia-a-dia, auscultando as fontes dos problemas e as reais necessidades das pessoas. Partindo do pressuposto de que a interação humana se organiza conforme os critérios e as modalidades de um sistema, vejo a pessoa não como um psiquismo todo ele interior, mas como um ser social, apenas passível de compreensão no contexto do sistema de relações em que está inserido. Desta forma, o sofrimento, seja ele expresso por bloqueios desenvolvimentais ou sintomas psicopatológicos, não mais subscreve uma problemática meramente individual; a pessoa torna-se porta-voz de um desajuste/disfunção nos comércios relacionais com o outro. Se a aventura do afeto pressupõe não só uma abertura ao Outro mas também uma (re)descoberta do próprio através do Outro, o desafio que o défice de socialização nos apresenta parece exigir toda uma ética voltada para a alteridade e é aqui que, cada vez mais me convenço, que se concentram as coordenadas da felicidade. Daqui, da necessidade de revalorização e rematerialização do contacto humano, desponta a proposta de organização de tertúlias, meetings e convívios informais entre artistas, amadores/as e/ou profissionais, e curiosos/as acerca do pensar e fazer criativo artístico. “O homem moderno” pondera João Bucho “necessita despertar capacidades actualmente marginalizadas e menosprezadas, como a intuição, a inteligência emocional, sensibilidade, alofilia, empatia, entre outras tantas competências humanas”. É aqui, por seu turno, que entra a aposta nas atividades criativas e expressivas, enformando o objetivo primário dos Encontros Criativos.
PORQUE A MEDIAÇÃO EXPRESSIVA FAZ BEM À SAÚDE:
A plataforma Arte CresSendo nasce justamente do desejo de recuperar o valor das atividades criativas e expressivas, i.e., de formas não-verbais de expressão humana, já que estas – contrariamente à fala e à linguagem lógica, racional e controlada – facilitam a mobilização das energias psíquicas, a expressão da nossa própria existência, das nossas emoções mais profundas, sem repressão da espontaneidade, e aumentam a capacidade de pensar, alterar, renovar e recombinar aspectos da vida. Este grande objetivo é, talvez, melhor plasmado nos Workshops Expressivos, na medida em que estes pretendem facilitar a organização e elaboração do Eu interior de cada pessoa, através de mediadores expressivos , ou seja, de todas as ações, atividades, instrumentos, técnicas ou consignas, dirigidas à sua livre expressão. Esta proposta baseia-se na crença de que todas as pessoas têm capacidade inata para serem criativas, que a criatividade é uma função mental fundamental para o equilíbrio humano, que é extravasada por diversas formas de comunicação verbais e não-verbais, e que as artes, os ritos, e os jogos são antes de mais nada puras funções mentais de estabilização, desenvolvimento e homeostase individuais e sociais.
Contrariamente ao consumo passivo, ao trabalho não criativo e mecânico, “a atividade criativa supõe a produção de coisas, até aí inexistentes, supõe a presença da imaginação, através dela o homem projecta aquilo que não existe, diferente do animal que está preso no aqui e agora. A atividade criativa por si só” prossegue Bucho “constitui-se como uma atividade de rebeldia, já que o criador nega o que se encontra já estabelecido, o existente, propondo algo de novo. O novo surge a partir do descontentamento com o já existente”. Por isso mesmo, o ato criativo revela-se fundamental para a mudança, para a saúde física e mental. Maior criatividade conduz a maior flexibilidade e diversidade de soluções, capacidade de ver as coisas de um ponto de vista novo, isto é, a capacidade de resolver os problemas de forma inovadora, questionar toda e qualquer premissa.
É aqui, na activação de um funcionamento divergente dirigido à resolução das necessidades do existir, que se me torna flagrante o continuum que vai das artes aos esforços psicoterapêuticos. O pensamento criativo “além de ser renovador, é exploratório e aventureiro, o próprio criador é atraído pelo desconhecido e indeterminado. O risco e a incerteza estimulam-no”, fazendo recordar as palavras de Feynman (2001, p.35) aplicadas à psicologia, sobre como “para resolver qualquer problema que ainda não tenha sido resolvido é preciso deixar entreaberta a porta para o desconhecido”. Por outro lado, o processo de cura pode, em muitos casos, ser entendido como o esforço de levar a pessoa a reautorar a própria vida, em tudo semelhante ao desafio que se encontra nas produções artísticas. Por isso mesmo, na minha prática clínica utilizo frequentemente metáforas e mediadores expressivos, afastando-me da oratória racional quando a percebo condicionante, e com resultados expressamente positivos.
Conforme Bernard Shaw, “não parámos de brincar porque f**amos mais velhos; f**amos mais velhos porque paramos de brincar”. “Esta é, pois, a essência da brincadeira, esta é a urgência do brincar” escrevo no meu artigo «Brincar é viver devagar» “A celebração da vida através do compromisso com o que temos de realmente original, de realmente nosso, de genuinamente eu. Mais do que procurar remover obstáculos ao bem-estar e à felicidade, mais do que assoberbar agendas com atividades extracurriculares e deveres que cubram o inaceitável vazio de um tempo de ócio, brincar é o investimento na procura do prazer que satisfaz e que preenche – do prazer que dá mais vida à vida. Mas na necessidade de rentabilizar ao máximo as 24 horas de cada dia, perdemos os benefícios físicos e mentais do tempo de qualidade com que nos podemos presentear a nós próprios, e às nossas crianças e jovens. A entrega ao lazer ganha cada vez menos terreno nas nossas agendas diárias, e quando lhes despendemos uma oportunidade, não raro não o fazemos sem um sentimento de culpabilização e remorso. Mas não é verdade que para descansar precisemos de merecê-lo depois de constante e intenso trabalho. Viver devagar não é um capricho, mas uma necessidade – e ninguém deverá poder dar-se ao luxo de ser tão trivial ao ponto de negligenciá-lo”. Quando se movem mediadores expressivos para o espaço terapêutico, bem vejo o brilho no olhar dos meus clientes adultos. Secretamente adoram brincar – mas pronto, eu prometo que não digo a ninguém.
Inspirados pelo mote de Fernanda Mello quando esta incentiva a que cada um/a “[se] reescreva. [Se] republique. [Se] reinvente. E [se] transforme na melhor versão feita de você”, oferecemos um espaço de incentivo à maximização dos potenciais de cada um/a, promovendo, a partir dos seus recursos cognitivos, afetivos, emocionais e criativos, um funcionamento positivo.
Inteiramente dedicado a clientes/pacientes, familiares e amigos/as, todos/as esses/as discretos/as herói(nas)s do quotidiano, é neste espaço do coração de Braga que as aventuras do autoconhecimento, da mudança e do crescimento positivo o/a esperam.
Por si, para si, consigo,
CresSendo