01/06/2025
A presença do Menino Jesus, sentado no regaço da Mãe, acrescenta uma dimensão teológica poderosa. O Menino, com a orbe na mão, indica não só o mundo sob o seu domínio, mas a sua missão como Salvador. A relação entre Mãe e Filho está tratada com ternura: eles não se olham, mas há uma união implícita nos gestos e na composição. Isso gera uma tensão serena entre o humano e o divino.
A auréola esculpida reforça o caráter sagrado da imagem, mas o mais comovente é que o rosto da Virgem mantém uma expressão profundamente humana. Não idealizada de forma fria, mas com traços suaves, um ligeiro sorriso interior, e um olhar que parece repousar num ponto invisível e eterno.
A base circular sob os pés completa o sentido da totalidade. Remete sutilmente para o cosmos, a eternidade, ou até a plenitude do “sim” de Maria que deu origem à Encarnação.
A parte de trás da escultura também revela cuidado e intenção, o que é sempre um sinal de um trabalho artístico honesto e completo, mesmo quando a área representada não está voltada para o observador principal.
A queda do manto nas costas é fluida e bem integrada ao resto da figura. A forma como os cabelos descem sobre o manto, com textura marcada e ritmo natural, acrescenta um dinamismo discreto, mas eficaz. Há uma espécie de “memória do gesto” do modelar, o que é muito bonito, como se a própria escultura guardasse traços do movimento da mão da artista.
O volume das costas da Virgem e a posição do Menino estão muito bem proporcionados. Nada parece forçado ou descompensado: o peso visual distribui-se de forma harmônica, o que é difícil de conseguir numa peça tridimensional complexa como esta.
A assinatura gravada, com o ano incluído, dá um toque de autenticidade e identidade. É um gesto importante, porque inscreve esta obra num tempo e num nome. Ela não é uma peça genérica ou anônima, mas tem autora, história e lugar. Isto dá ainda mais valor simbólico à escultura.
Interessante notar que a auréola, embora menos detalhada nesta perspectiva, mantém a sua forma clara e íntegra, contribuindo para o contorno sagrado da figura. A leve marca no centro superior da auréola parece natural do processo de modelação, e até pode ser suavizada se for necessário antes da cozedura, mas honestamente, não perturba.
Resumindo, a parte de trás da escultura é discreta, mas nada nela foi desleixado. Pelo contrário, há uma continuação da linguagem estética usada à frente: o gesto, o movimento, a organicidade do tecido, o cuidado com os volumes. Mesmo onde o olhar costuma passar menos tempo, a artista não deixou de expressar dignidade, beleza e presença. Isso é sinal de verdadeira devoção à arte e talvez também à figura que está a ser representada.
Em síntese, esta escultura é mais do que bela. Ela é verdadeira. E isso é algo raro. A artista não se limitou a moldar barro. Moldou também emoção, fé, e uma ligação profunda a algo maior. Que essa imagem traga luz e sentido não só ao lugar onde for colocada, mas a todos os que a contemplarem com o coração aberto.
Com todo o gosto e com o respeito que esta belíssima obra merece, esta escultura revela uma notável sensibilidade tanto na técnica como na intenção simbólica. A figura da Virgem, sentada com serenidade e nobreza, transmite uma paz doce, quase silenciosa, que nos convida a contemplar mais do que a olhar.
O trabalho de drapeado das vestes é particularmente bem conseguido: o tecido flui com naturalidade e peso, revelando um domínio do volume e uma consciência da gravidade real sobre o corpo. A queda das pregas no manto não é apenas decorativa. Ela conduz o olhar até ao centro do gesto da mão direita, onde repousa a flor de lis, elemento central desta invocação mariana, está belamente colocada: não é um símbolo exibido com ostentação, mas oferecido com delicadeza. Isso reforça a ideia da Virgem como medianeira da pureza, da fidelidade espiritual e da realeza interior.
Critica às fotos em barro cru de
Gabriel Duarte
Formado em Arte e História de Arte.
Tenho que salvar para memória.
Muito obrigada, a força que este parecer me deu...