31/12/2025
Bonita homenagem da amiga Manuela Cruzeiro a Etelvina , viúva do patrono do Museu Louzã Henriques
ETELVINA SERAFIM FERREIRA RITA LOUZÃ HENRIQUES
1932 -2025
Partiste assim...sem aviso...como quem sai de cena em silêncio, sem espanto nem temor, sem mágoas visíveis, mas ferida por dentro. Uma dor antiga, que trazias docemente pela mão...tão mansa, quase vegetal, e que só nós, os teus amigos mais próximos, podíamos entender.
Não! Não te assentava em nada o papel de mulher frágil, muito menos sacrificada ou resignada. E também não suportavas o queixume ou a vitimização.
Afinal tu pertences âquele grupo de mulheres que "viveram sempre de mãos dadas com o perigo" . Mulheres que enfrentaram dificuldades hoje inimagináveis, pelo simples facto de serem companheiras de perseguidos e presos anti-fascistas. Mulheres bravas (como dizia o Manel) que disseram presente na hora H, e que a partir daí suportaram sem vacilar a inevitáveis consequências pessoais, familiares, profissinais.
Natureza indomãvel, mistura explosiva de orgulho, sentido prático e espírito de missão, seguiste a tua escolha, sem alardear coragem, com a aparente facilidade de quem faz "apenas" o que tem que ser feito. Pudesss esse triângulo virtuoso algo contra outros bem mais dolorosos golpes, que a vida te reservou. Mas esses, de tão traiçoeiros, apanharam-te desprevenida e impotente, sem sequer saber que nome dar âs feridas abertas pelas derrocadas sucessivas do teu mundo.
Animal ferido, refugiaste-te em casa. Essa vossa casa, carregada de ausências, mas também de memórias e afectos aí plantados pelo grande círculo de amigos, velhos e novos, teus, do Manel dos vossos filhos. Passou a ser a tua fronteira inexpugnável. Espécie de retiro...onde só de longe te chegava o rumor "disto cá fora", de que já pouco te interessava. O mundo em que viveste era outro...não este, do cálculo e da mentira. Da renúncia e do conformismo, da mediocridade e da indigência moral e cívica.
Por isso, foste partindo aos poucos, perdida talvez entre as páginas dos romances que o teu filho Luís te levava.
Num verso admirável do teu poeta/amigo H Helder, há uma pergunta que os gregos faziam face â morte de alguêm ; Tinha paixão? Os teus amigos, cuja missão primeira é, como alguém disse, "passar a limpo" a tua vida, poderão testemunhar: Sim, tinha paixão! Morreu gregamente. E viveu como heroina...entre Cassandra e Antígona. Assim te vamos recordar com gratidão e uma imensa saudade.