A Guitarra Portuguesa, assim como outras cítaras europeias, descende directamente da Europa central e é um dos instrumentos familiares da thueringer ou da hamburger Waldzither alemã (ainda hoje em uso na Alemanha, se bem que escassamente), ela representa tanto ao nível da afinação como ao nível da construção do seu interior e exterior um dos desenvolvimentos directos do cistre europeu renascentista. Este instrumento esteve fortemente presente na música de corte de toda a Europa (incluindo a Portuguesa), mas especialmente na Itália, França e Alemanha desde meados do século XVI até finais do século XVIII.
Em tempos foi um instrumento muito popular, com numerosos modelos durante os séculos XVI, XVII e XVIII, apenas alguns modelos sobreviveram até ao século XIX: como foi o caso da guitarra Inglesa, em Inglaterra e no norte da França; a cítara da Turíngia, na Alemanha, o bandolim Português e a guitarra Portuguesa em Portugal.
O ”Manual of Guitar Technology” refere por exemplo a cítara Alemã e a guitarra Portuguesa (de Coimbra)
Cada instrumento evoluiu em direcções ligeiramente diferentes, variando o tamanho, número de cordas, o cravelhame foi substituído por um sistema metálico de afinação em leque, em alguns locais foi inserida uma roseta na boca da guitarra e a decoração tornou-se mais simples. A guitarra Inglesa mudou a afinação para um acorde perfeito (Do-Mi-Sol) enquanto a guitarra Portuguesa manteve-se pura e fiel à afinação da antiga cítara.
Deste instrumento existem ainda centenas de exemplares bem conservados espalhados em vários museus por toda a Europa. As primeiras cítaras que, fundamentalmente, são um cistre com ligeiras alterações em dimensão da caixa de ressonância, braço, material das cordas, etc, divulgaram-se à partir do inicio do século XVIII como um instrumento também bastante usado pela Burguesia para interpretar música mais ao seu gosto (como suites, minuetos, modinhas, etc) e, em dado momento, nalgumas regiões também usado pelas camadas mais populares para interpretar música popular (Como é o caso do Fado e das quais nos resta menos documentação).
O cistre terá, por sua vez, baseando-se no vasto legado iconográfico da Idade Média, como antepassado mais provável a cítola medieval, da qual existem várias imagens, esculturas e relatos em crónicas da época e um único exemplar num museu em Inglaterra, do século XIII.
A cítara inglesa do século XVIII (em Portugal chamada Guitarra Inglesa), por vezes erroneamente considerada o antepassado da guitarra portuguesa, é também uma descendente do cistre renascentista, mas acrescentada de alterações substanciais, como uma afinação e uma construção interior completamente diferentes das típicas do cistre e das outras citaras europeias. Não é, um antepassado, mas sim parente próximo. O único elemento que a guitarra portuguesa provavelmente assimilou "por empréstimo" da guitarra inglesa, foi a mecânica de afinação, posteriormente alterada e aprimorada esteticamente em Portugal.
Nas suas origens remotas e mais incertas, esta família de instrumentos remonta provavelmente á Khytara grega e aos primeiros instrumentos de corda com braço, dos quais os vestígios mais antigos foram encontrados na presente Turquia (não confundir com o alaúde, que é muito mais tardio e ao nível da construção e afinação, apesar das semelhanças na forma, pertence a outra genealogia de instrumentos).
Guitarristas
Gonçalo Paredes e Flávio Rodrigues, entre outros, foram os compositores do sec. XX mais respeitados dentro do estilo solista tradicional. Posteriormente Artur Paredes surgiu com a sua abordagem e interpretação pessoal do instrumento, ampliando a versatilidade, o reportório, a expressividade, a técnica e até melhorando em colaboração com construtores a acústica do instrumento.
Trabalhando com a família de construtores Grácio, de Coimbra, Paredes trouxe o instrumento para a era moderna, onde ele se mantém hoje, como perfeitamente actual.
Carlos Paredes, filho de Artur Paredes e neto de Gonçalo Paredes, criou novas melodias e tornou a Guitarra Portuguesa num instrumento de concerto, tocando a solo ou em grupo com músicos de alto gabarito, como músicos de jazz como Charlie Haden, entre outros. Simultaneamente, em Coimbra, António Brojo e António Portugal e tantos outros desenvolveram tanto a Guitarra Portuguesa como o Fado de Coimbra, ultrapassando limitações anteriores, quer na composição quer na improvisação. Carlos Paredes fez pela composição o que seu pai fez pelo instrumento propriamente dito.
Será também de referir o papel fundamental de Pedro Caldeira Cabral na divulgação a nível internacional da Guitarra Portuguesa como instrumento solista e em Portugal a vários níveis, nomeadamente na compilação e publicação de "A Guitarra Portuguesa", editado pela Ediclube, e na composição, nos arranjos e interpretação de repertório erudito para a Guitarra Portuguesa.
Em 1796, Silva Leite publica um método de guitarra chamado "Estudo da Guitarra" para utilização dos estudantes, sendo esta a primeira vez que a guitarra é mencionada em Portugal, apesar de a afinação sugerir que o método foi escrito para a guitarra Inglesa.
Caldeira Cabral argumenta que a afinação usada hoje descende directamente da cítara. A cítara era considerada um instrumento erudito tocado em locais da alta sociedade, mas entrou em decadência no século XVIII, resistindo apenas nas mãos de algumas pessoas da classe urbana com poder económico. A meio do século era um instrumento de mendigos e escutava-se nas tabernas dos bairros antigos. Fado de Lisboa visto por Malhoa, no início do século XX; Fado de Coimbra
Quando o Fado se foi afirmando como uma canção nacional, assiste-se ao renascimento do instrumento em Portugal em meados do século XIX, quase extinto no resto da Europa. Em 1870 a guitarra é introduzida no meio estudantil em Coimbra, do qual faz hoje indissociavelmente parte.
O número de interpretes cresceu durante o século XX, com especial relevo para: Anthero da Veiga, Artur Paredes, Flávio Rodrigues, Carlos Paredes, António Brojo e António Portugal no estilo de Coimbra; ou Armando Freire, Jaime Santos, José Nunes, Raul Nery and Jorge Fontes no estilo de Lisboa.
De salientar que Artur Paredes teve, em Coimbra, um papel fundamental na transformação da técnica do instrumento no sentido do aumento do volume sonoro em detrimento da ornamentação. A ele se deve também uma colaboração com a família de construtores Grácio, que resultou no abaixamento de um tom na afinação da guitarra de Coimbra e na alteração do desenho do corpo da guitarra. A par da lágrima (Coimbra) e da voluta (Lisboa) que ornamentam a cabeça, estas alterações tornaram-se importantes elementos de contraste em relação à congénere de Lisboa.
Recentemente a guitarra vem captando o interesse de compositores eruditos tanto em Portugal como no resto do mundo, como mero exemplo disso cito aqui entre milhares de prestigiados nomes os de... Eurico Carrapatoso, Sérgio Azevedo ou Fernando Lapa e no estrangeiro, como Andrew Jackson (Inglaterra), Yuasa (Japão) and Woody Man (Estados Unidos da América). Também de salientar o interesse despertado em interpretes como Charlie Haden (EUA), o Kronos Quartet (EUA) e Pekka Nylund (Finlandia).
[1] - F. Jahnel, Manual of Guitar Technology. Frankfurt am Main: Verlag das Musikinstrument, 1981.
[2] - E. V. de Oliveira, Instrumentos Musicais Populares Portugueses. Bertrand, 3rd ed., 2001.
[3] - P. C. Cabral, Instrumentos Musicais Populares Portugueses, ch. Guitarra Portuguesa, pp. 194–199. Bertrand, 3rd ed., 2001.
Constantino Portelinha Menino