25/04/2026
Hoje fiz um resumo da minha alma artista nestes 13 anos de pintura em tela.
A alma de um artista vive, inevitavelmente, em desequilíbrio como quem avança sobre uma corda bamba suspensa no vazio. E, ainda assim, o que nos impede de cair não é a razão, nem a técnica, nem sequer o reconhecimento… é o coração. É a pele da alma exposta, é o peso indomável das emoções, é a vertigem das sensações que nos atravessam e nos rasgam por dentro.
Não acredito, nem por um instante, num artista que sinta de forma falsa. A arte não nasce da mentira. Pode desdobrar-se em mil leituras, mas a sua raiz é sempre verdadeira mesmo quando fere. Todos os artistas que deixaram marca no tempo contaram, à sua maneira, a própria história: fragmentada, velada, escondida em metáforas. Houve quem criasse à beira da loucura, quem pintasse no coração da guerra, quem carregasse silêncios densos, feridas invisíveis, paixões incendiárias, conflitos íntimos, dependências que consumiam como fogo lento.
Ser artista é viver com a pele em carne viva. É sentir para além do suportável. E quando a profundidade se cruza com essa sensibilidade extrema, nada permanece leve tudo se adensa, tudo se torna matéria viva, visceral, quase sangrenta na forma como pulsa.
Em mim habitam duas linguagens: "a música e a pintura, o que se escuta e o que se revela ao olhar." Em ambas me entrego inteira, sem medida. Não conheço o território do “quase”. Ou me recolho ao abrigo da minha própria sombra, ou abro as asas e deixo-me arder numa felicidade impossível de conter. Ou digo a verdade no instante em que nasce, ou não sei sustentar a ficção de uma mentira.
É nesse intervalo entre o tudo e o nada que germinam muitos dos meus abismos. Porque em mim há uma urgência de expor sentimentos verdadeiros. Ou transbordo, ou me fecho. Não sei existir pela metade. Não sei ocultar sem pagar um preço que o corpo reclama, duro, real, inevitável. O silêncio pesa-me nos ossos, corrói-me em silêncio.
Por isso, escolho sempre explicar em vez de justificar. Escolho revelar em vez de esconder. Porque esconder dói, dói fundo, dói quase com violência, como se o meu próprio corpo recusasse tudo aquilo que não é sentimento verdadeiro.
Sou assim no mundo… um mundo que, tantas vezes, ainda não reconheço como meu. Há momentos em que a ausência de pertencer se impõe, em que me sinto deslocada, desenraizada, como se habitasse um lugar que não me cabe.
E, no meio de tudo isto, a única resposta que me resta é simples, ainda que difícil de aceitar: "eu pinto por amor. O dinheiro… esse é apenas a sombra tardia de sentimentos quando se revelam, nus sobre a tela."
“Eu, Marcisa Bayma, sou parte daquilo que pinto, mas sou inteira daquilo que sonho.”
E, se olhares verdadeiramente para uma obra minha, depois de atravessares tudo isto, talvez consigas ver para além da forma. Talvez consigas ler-me. Talvez consigas tocar aquilo que sou.
Artista plástica autodidacta Marcisa Bayma
Viana do Castelo 25.04.2026