25/07/2025
Borduna cerimonial com trançado em fibra e algodão
Povo: Kaiapó (Mebengôkre)
Família Linguística: Jê
Localização: Aldeia Au kre (PA)
“A borduna, na experiência Mebengokré, constitui um elemento definidor da subjetividade do seu portador, juntamente com outros elementos incluídos na categoria kukradja (Fisher 1991; Cohn 2005; Lea 2012; Bollettin 2019). No passado era utilizada enquanto instrumento de guerra e inúmeros relatos etnográfico apresentam o uso dessa arma para fins bélicos, seja entre os Mebengokré-Xikrin do Rio Bacajá, seja entre outros grupos Mebengokré. Ademais a borduna era utilizada para atividades venatórias, servindo para caçar tanto animais de grande porte, como a anta, quanto animais menores, como a cotia. Ao longo das minhas permanências entre os Mebengokré, de 2005 até hoje, ela foi utilizada para caçar em esporádicas ocasiões, quando cartuchos para os fuzis não eram disponíveis. Em todos os casos que testemunhei de uso da borduna na caça, as presas foram queixadas, e nunca a vi ser usada com outros animais.
A borduna é largamente utilizada também quando da realização dos vários rituais que marcam a cotidianidade Mebengokré. Os mebenghete, os anciões, levam suas bordunas nas danças segurando-as com a mão e apoiando-as no ombro. Eles as levam no ngáb, a Cada dos Homens também quando é realizada alguma reunião dedicada a assuntos especialmente relevantes, e nesses momentos costumam brandi-las agitando-as no ar como forma de ênfase ao longo dos discursos proferidos. Outro uso evidente da borduna é sua presença constante quando os Mebengokré reúnem-se com os kuben, os ‘brancos’. É uma presença marcante quando eles precisam reivindicar o cumprimento de acordos, a melhoria dos atendimentos de saúde e de educação, ou a defesa de seus direitos. F**a evidente, assim, como a borduna constitui um objeto carregado de inúmeras vidas: a o lado do caçador, do guerreiro, do orador, etc. A borduna perpassa assim a identidade masculina Mebengokré em níveis variados, individual e coletivo.”
Fonte: As Vidas dos Artefatos Ameríndios Amazônicos numa Coleção Etnográfica Italiana - Paride Bollettin - UFPE